Entenda o impacto das sucessivas crises políticas no desempenho econômico do Peru e os desafios à frente
O Peru enfrenta um paradoxo: sua economia mantém crescimento e estabilidade, mas a instabilidade política constante tem drenado seu real potencial de desenvolvimento. Nos últimos anos, mudanças frequentes de presidentes e crises institucionais afetaram diretamente a retomada plena do progresso social e econômico.
Apesar de indicadores macroeconômicos positivos, como a manutenção do valor da moeda, o sol, e o saneamento das contas públicas, o país não conseguiu superar totalmente os impactos da pandemia e as consequências das disputas políticas. As eleições presidenciais e parlamentares neste domingo colocam novos desafios para garantir sustentabilidade ao crescimento.
Nos próximos tópicos, exploraremos os pontos fortes e as dificuldades econômicas do Peru, os custos da volatilidade política e as perspectivas para o futuro, refletindo os impactos dessas dinâmicas na vida dos peruanos.
Resiliência da economia frente a crises políticas
O Peru conseguiu se destacar por sua gestão macroeconômica ao longo das últimas décadas. A autonomia do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP) é fundamental para garantir uma política monetária estável, isolada das oscilações políticas. Essa independência foi decisiva para manter uma das moedas mais estáveis da América Latina, o sol.
Além disso, o país ofereceu nos últimos anos segurança jurídica aos investidores, atraindo capital estrangeiro essencial para seu crescimento. Este modelo consolidou o Peru como um exemplo regional, mesmo em meio a um cenário político marcado por constantes trocas no comando da presidência e do governo.
Crescimento abaixo das expectativas e custos sociais
Embora a taxa média de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) tenha girado em torno de 4% nas duas primeiras décadas do século, o ritmo caiu abruptamente a partir de 2018, com o início do ciclo de instabilidade após a renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczynski. Desde então, o país registra crescimento médio anual de cerca de 2,3% sem contar os anos afetados pela pandemia.
Esta desaceleração revela um expressivo custo de oportunidades perdidas, segundo especialistas como Armando Mendoza, que aponta que o Peru poderia crescer até 5 ou 6% caso adotasse políticas econômicas persistentes e previsíveis. O cenário internacional favorável para exportação de metais preciosos, como ouro e cobre, teria sido melhor aproveitado caso houvesse maior estabilidade governamental.
Na prática, o crescimento insuficiente impactou negativamente indicadores sociais. A pobreza passou de 20% em 2019 para 27,6% em 2024, e a renda formal real ainda não retornou aos níveis pré-pandemia, dificultando avanços no emprego formal e na qualidade de vida.
Impactos diretos do ‘carrossel político’ na economia
A sucessão acelerada de presidentes, oito nos últimos anos, e a alta rotatividade de ministros, especialmente da Economia, que duram em média sete ou oito meses, dificultam a implementação de políticas consistentes e previsíveis. Isso torna o planejamento estratégico quase inviável, principalmente em setores que demandam investimentos robustos e de longo prazo, como a mineração.
O atual presidente, José María Balcázar, assumiu em fevereiro e deve deixar o cargo já em julho, exemplo claro da volatilidade que assola a liderança política no Peru. A instabilidade também gera desconfiança no setor privado, dificultando o diálogo entre agentes econômicos e governo.
Além disso, a corrupção, vista como um dos principais problemas pelos peruanos, afeta a eficiência do Estado. Setores importantes foram capturados por máfias e atividades criminosas, incluindo a mineração ilegal, que gerou cerca de US$ 11,5 bilhões em exportação ilegal de ouro no último ano, valor equivalente à agroindústria.
Perspectivas em meio a um cenário global incerto
O futuro imediato da economia peruana depende não apenas dos resultados das eleições, mas também do desenrolar do conflito no Oriente Médio, que já elevou o preço do petróleo e ameaça uma recessão global. Mesmo assim, projeta-se crescimento do PIB em torno de 2,9% para 2026, o que colocaria o Peru como a segunda economia com maior crescimento na América Latina.
O desafio dos próximos governantes será superar o atual “modo zumbi” da economia e transformá-la em uma força propulsora do progresso social e da coesão nacional. Manter a autonomia e a liderança do Banco Central, sobretudo a presidência de Julio Velarde, é visto como fundamental para conservar a solidez macroeconômica em meio à instabilidade política.
O desempenho das autoridades eleitas nas próximas semanas definirá se o Peru conseguirá finalmente articular crescimento robusto, combate à corrupção e estabilidade política para garantir mais oportunidades e qualidade de vida aos seus habitantes.
