Alta do querosene de aviação eleva custos e deve pressionar o preço das passagens aéreas no Brasil, governo estuda cortes de tributos e linhas de crédito para reduzir impacto
O setor aéreo brasileiro recebeu um novo choque no custo de operação após o recente reajuste do combustível de aviação, e a consequência direta pode ser aumento nas passagens aéreas no Brasil.
Especialistas apontam que o repasse varia conforme a estratégia de cada companhia, mas alertam para elevações de preços relevantes se a guerra no Irã persistir.
Os consumidores enfrentam ainda incertezas sobre direitos em cancelamentos e sobre a oferta de voos, o que pode combinar com a alta do combustível para empurrar tarifas para cima.
conforme informação divulgada pelo g1
Por que o querosene subiu tanto
O preço do querosene de aviação subiu porque a guerra no Irã elevou os riscos no transporte de petróleo, já que o país controla o estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo, segundo a Agência Internacional de Energia.
No mercado, o barril de referência Brent, que influencia o QAV, saiu de US$ 71,32 antes da crise para patamares que chegaram a ultrapassar US$ 115 em março, tendo girado em torno de U$ 99 em um momento recente, ou seja, quase 40% acima do nível pré-guerra.
Como o QAV é derivado direto do petróleo, ele segue essas oscilações internacionais, o que explica parte do impacto nas passagens aéreas no Brasil.
Quanto isso pesa no custo das companhias
No Brasil, a vulnerabilidade ao choque externo é ampliada pela política de Paridade de Preço de Importação, que faz o combustível acompanhar a cotação internacional, mesmo com cerca de 90% do QAV sendo produzido no país.
Em tempos normais, o combustível representa cerca de 40% do custo total das empresas aéreas brasileiras, enquanto a média mundial é de 27%, segundo especialistas citados pela reportagem.
Após o último reajuste, a Associação Brasileira das Empresas Aéreas informou que o combustível passou a responder por 45% dos custos totais das companhias.
Com esse aumento no custo do QAV, a conta pode ser repassada ao consumidor, e estudos e análises de mercado indicam que as passagens aéreas no Brasil podem subir até 20% em cenários mais severos.
Em exemplo de impacto extremo, para o A380, o maior avião comercial do mundo, poderia haver um custo adicional de cerca de R$ 1,8 mil por passageiro, considerando a ocupação média de 80% dos assentos.
Medidas do governo e do setor
O governo federal tem sinalizado um pacote de ações para mitigar os efeitos, que pode incluir corte de tributos federais sobre a importação e comercialização do QAV e uma linha de crédito emergencial financiada pelo Fundo Nacional de Aviação Civil, para compra de combustível.
A Agência Nacional de Aviação Civil informou que “tem acompanhado os impactos causados nos preços de QAV, juntamente com o Ministério da Fazenda, Casa Civil, Ministério de Portos e Aeroportos e da Agência Nacional de Petróleo”.
Em nota, a Anac afirmou que “o governo federal tem agido para reduzir os impactos, porém, entendemos que algum impacto acontecerá, no caso de a guerra seguir por mais tempo” e que “o texto deve ser expandido para esse tipo de circunstância” quando trata da responsabilidade das companhias em casos de guerra.
O que o consumidor deve considerar antes de comprar
Para quem planeja viagem, especialistas recomendam avaliar a antecipação da compra, porque as companhias tendem a fazer repasses abruptos e a redução de oferta de voos pode elevar tarifas pelo princípio da oferta e demanda.
“As pessoas podem e devem antecipar a compra da passagem pois há a possibilidade, com a guerra, de redução da quantidade de voos”, diz Diego Endrigo, planejador financeiro, alertando para a combinação entre menor oferta e demanda estável.
Além disso, é recomendado revisar coberturas de seguro-viagem oferecidas por cartões de crédito ou operadoras, que podem proteger contra cancelamentos e imprevistos.
Uma outra questão a considerar é a segurança jurídica sobre direitos de passageiros: o Supremo Tribunal Federal suspendeu processos contra companhias em casos de atrasos, alterações ou cancelamentos decorrentes de “fortuito externo” ou força maior, o que pode dificultar reclamações caso a guerra seja considerada motivo excludente de responsabilidade.
O advogado Walter Moura, do Idec, argumenta que “uma guerra que tem mais de três semanas não é como um tornado, que acontece do nada”, e defende que conflitos prolongados não sejam automaticamente enquadrados como fortuito externo.
Impacto de médio e longo prazo, e o papel do SAF
Um efeito potencialmente positivo para o futuro é o impulso a alternativas ao QAV fóssil, como o Sustainable Aviation Fuel, produzido a partir de resíduos e biomassa.
Atualmente, o SAF é historicamente de “3 a 5 vezes mais caro que o querosene comum”, mas a diferença tende a reduzir conforme o preço do Brent sobe, e o Brasil tem potencial para crescer na produção, por causa da disponibilidade de biomassa e experiência com biocombustíveis.
Especialistas defendem que, além do arcabouço regulatório, é necessária uma carteira de investimentos para viabilizar projetos em escala, e que a crise atual pode funcionar como alavanca para acelerar o uso de SAF e reduzir a dependência de mercados externos.
Enquanto as medidas de curto prazo são discutidas, quem pretende comprar passagens aéreas no Brasil deve acompanhar a evolução do preço do QAV, considerar antecipar compras, conferir seguro-viagem e ficar atento às decisões regulatórias que podem alterar direitos e a oferta de voos.
