Tarifaço de Trump remodelou o comércio global em 2025, impactos nas importações da China, ganhos de Taiwan e Vietnã, e por que americanos pagam a conta

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Um ano após o ‘Dia da Libertação’, o tarifaço de Trump mudou rotas de importação, elevou a arrecadação alfandegária e deixou exportadores e consumidores em dúvida

O anúncio em 2 de abril de 2025 de um pacote de tarifas anunciado como independência econômica dos Estados Unidos provocou reorganizações rápidas nas cadeias globais de comércio.

Empresas americanas estocaram mercadorias, importadores realocaram fornecedores e países inteiros viram seus volumes de exportação oscilar em poucos meses.

Os dados sobre origem das importações dos EUA e o efeito nas contas domésticas e externas mostram vencedores, perdedores e quem de fato arca com os custos, conforme informação divulgada pelo g1

O anúncio e a mecânica das tarifas

No discurso do chamado Dia da Libertação, a Casa Branca informou que haveria uma sobretaxa básica de 10% sobre todas as importações, com exceções por sanções e acordos pré-existentes.

Ainda segundo os dados, 85 países que exportam mais para os EUA do que importam seriam alvo de sobretaxas mais altas, que chegavam a até 50%, e o governo anunciou uma pausa inicial para permitir negociações.

Em 9 de abril de 2025 o governo americano fez uma pausa de 90 dias nas tarifas acima da taxa básica de 10%, e após extensões as tarifas específicas por país passaram a vigorar em 7 de agosto de 2025.

Fluxos de comércio, vencedores e perdedores

Antes do anúncio, entre janeiro e março de 2025, importadores dos EUA trouxeram estoques 20% maiores do que a média de 2022 a 2024, um salto equivalente a cerca de 184 bilhões de dólares (R$ 949 milhões).

Houve também compras massivas de alguns produtos, por exemplo barras de ouro, com importações cerca de 50 vezes o volume habitual, totalizando aproximadamente 72 bilhões de dólares (R$ 371 bilhões), principalmente da Suíça.

As empresas americanas, aproveitando a janela de adaptação, deslocaram cadeias de suprimento para países com menor risco tarifário, e as importações se comportaram “como a água, fluindo de países com tarifas altas para países com tarifas baixas”, segundo o economista Haishi Li.

Nenhum país sofreu queda maior que a China, que entre abril e julho de 2025 teve uma redução de 66 bilhões de dólares nas exportações para os EUA.

O Canadá, alvo de ameaças de tarifas de 25%, registrou queda de 24 bilhões de dólares, mas conseguiu compensar parte da perda e, no total, as exportações canadenses em 2025 ficaram apenas 1,6 bilhão abaixo das de 2024.

Por outro lado, países chamados de “dos 10%”, como Austrália e várias nações da América Latina, se beneficiaram, e mesmo nações sujeitas a taxas elevadas, como Vietnã, Tailândia e Taiwan, registraram aumentos nas vendas aos EUA.

Apesar de enfrentarem some tarifas recíprocas de 46%, 36% e 34%, respectivamente, Taiwan, Vietnã e Tailândia viram fluxos maiores, com um acréscimo de 34 bilhões de dólares nas importações apenas de Taiwan entre abril e julho de 2025.

Quem está pagando a conta

O aumento das tarifas não trouxe, até agora, um retorno significativo da produção para os Estados Unidos, e a economia americana sentiu efeitos negativos em indústria e emprego, segundo Alex Durante, da Tax Foundation.

O valor total das importações retornou ao normal após o anúncio, mas a arrecadação alfandegária dos EUA disparou: em 2025 o Tesouro americano recolheu 287 bilhões de dólares em tarifas e impostos, aproximadamente o triplo do registrado em anos anteriores.

Essa arrecadação representou cerca de 5% de todos os impostos coletados nos Estados Unidos em 2025, e estudos indicam que as tarifas mais altas foram pagas quase integralmente pelos importadores americanos, ou seja, pelos consumidores dos EUA.

Alex Durante estimou que “as tarifas custaram, na prática, cerca de mil dólares por domicílio americano em 2025“, efeito que combina aumento de preços, redução de investimentos, cortes de empregos e compressão salarial.

Incerteza jurídica e próximos passos

A incerteza pós-tarifa persistiu, com acordos comerciais acelerados e revistos, além de novas ameaças direcionadas a países ou produtos específicos, o que tornou o comércio global mais volátil.

Em fevereiro a Suprema Corte derrubou a base legal das tarifas do “Dia da Libertação”, e, ainda assim, uma nova alíquota geral de 15% entrou em vigor, enquanto o governo buscava outras formas de aplicar sobretaxas mais altas.

Diante da imprevisibilidade, especialistas recomendam que governos apoiem empresas na diversificação de mercados e cadeias de suprimento, para aumentar resiliência e reduzir dependência dos EUA.

As decisões dos próximos meses, tanto nos tribunais quanto na política tarifária, continuarão a determinar se as mudanças observadas são transição temporária ou a base de uma nova ordem no comércio global.

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