Entenda por que a Páscoa com coelhos e ovos reúne tradições pagãs de fertilidade, práticas cristãs dos ovos bentos e lendas protestantes que se espalharam pela Europa e Brasil
A imagem do coelho da Páscoa e a troca de ovos parecem hoje inseparáveis da celebração, mas suas origens são múltiplas e antigas.
Em séculos diferentes, símbolos pagãos, rituais de primavera e adaptações cristãs se fundiram, dando à Páscoa atual costumes que atravessam gerações.
As informações a seguir reúnem pesquisa histórica e relatos sobre como esses símbolos se formaram e chegaram ao Brasil, conforme informação divulgada pelo g1.
Origem do coelho da Páscoa
A figura do coelho não tem relação direta com a ressurreição de Cristo, e a sua associação à Páscoa é incerta, com explicações variadas.
Na Europa, o coelho era visto como símbolo de fertilidade e como mensageiro da primavera, por sua capacidade reprodutiva e aparecimento na estação de renascimento da natureza.
A primeira menção ao coelho que traz ovos data do século 17, e no século 19 o símbolo ganhou força na Alemanha, impulsionado pelo setor da confeitaria.
O pesquisador Alois Döring sugeriu ainda um eixo religioso para a invenção, em função das diferenças entre práticas católicas e protestantes.
Ele afirmou, segundo as fontes, “Crianças católicas sabiam que na Páscoa poderiam voltar a comer ovos, que durante a Quaresma eram proibidos. Mas como explicar às crianças protestantes por que, de repente, havia tantos ovos na Páscoa?”, explica Döring.
Por que ovos na Páscoa
O costume de cozinhar, colorir e presentear ovos é milenar e aparece em várias culturas antigas, incluindo egípcios, persas e tribos germânicas.
Algumas tradições atribuem aos chineses a prática de presentear ovos na festa da primavera, enquanto nobres da Antiguidade criavam ovos de metais preciosos, que inspiraram decorações populares.
No Cristianismo, o ovo passou a simbolizar a vida nova e a ressurreição de Jesus, e comunidades mantiveram a pintura e a bênção de ovos como ritual pascal.
Sobre a cor e a simbologia, Döring observa, “Antigamente, era comum pintar os ovos apenas de vermelho, para simbolizar tanto a cor do sangue de Cristo quanto a do amor que ele nutria pela humanidade. Isso ainda é assim na Igreja Ortodoxa”, conta Döring.
Como a tradição chegou ao Brasil
O coelho da Páscoa não era conhecido no Brasil até o início do século 20, e sua difusão se relaciona diretamente à imigração europeia.
Regiões do Sul receberam imigrantes alemães entre 1913 e 1920, e com eles vieram histórias, festas e hábitos, incluindo a tradição do coelhinho que esconde ovos para as crianças encontrarem no domingo de Páscoa.
Uma lenda popular alemã conta que uma mulher pobre pintou ovos e os escondeu num ninho para presentear os filhos, e quando eles encontraram o ninho, um grande coelho teria passado correndo, originando a história de que o coelho trouxe os ovos.
Com o tempo, surgiu também a produção comercial de ovos de chocolate, cestas e brincadeiras de caça aos ovos, formas que se adaptaram facilmente às celebrações familiares brasileiras.
Páscoa, fé e significado dos símbolos
A Páscoa é a principal festa do Cristianismo, celebrada no primeiro domingo de lua cheia depois do início da primavera europeia, e sua data foi fixada desde o Primeiro Concílio de Niceia, em 325, ou seja, há cerca de 1.700 anos.
Embora o foco religioso seja a ressurreição de Jesus e a mensagem de que a vida triunfa sobre a morte, a festa incorporou elementos do Pessach, celebração judaica da libertação do Egito, e também costumes populares de comemoração.
No século 17 e 18, práticas festivas nas igrejas católicas, como decoração de ovos e anedotas pascais, contrastavam com o tom mais sério das celebrações protestantes, o que ajudou a moldar narrativas como a do coelho que distribui ovos.
Hoje, a Páscoa com coelhos e ovos combina religiosidade, cultura popular e comércio, mantendo ritos antigos, como a pintura de ovos, e inovações modernas, como ovos de chocolate e gincanas para crianças.
O resultado é uma celebração plural, que une memória religiosa, símbolos de renovação e práticas sociais que se adaptaram ao tempo e aos lugares onde a festa é vivida.
