PCC na Bolívia: como Santa Cruz de la Sierra se tornou refúgio de chefes do crime e por que é tão difícil desmantelar facções

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Localizada na fronteira com Brasil e Paraguai, Santa Cruz de la Sierra virou hub logístico e financeiro do tráfico, atraindo lideranças do PCC e esquemas de lavagem

Na manhã de 13 de março, a prisão do uruguaio Sebastián Marset em Santa Cruz de la Sierra expôs, mais uma vez, a presença de líderes do crime internacional instalados na cidade.

Marset, apontado como líder do Primeiro Cartel Uruguaio, usava identidade falsa e chegou a aparecer em vídeo ao lado de símbolos do PCC, afirmando que estavam “preparados para fazer guerra com quem fosse”.

As detenções seguintes em operações locais e as análises sobre rotas e logística mostram por que a região virou refúgio e base de operações para facções estrangeiras, conforme informação divulgada pelo g1.

O caminho da coca e a transformação em rota do tráfico

A presença criminosa em Santa Cruz não se explica apenas por cultivo local, embora haja plantios em áreas como Yapacaní, na província de Ichilo, próxima ao Chapare.

Segundo relatório citado pela reportagem, Santa Cruz concentra 37% da folha comercializada na Bolívia, tornando-se o principal destino para venda da planta, mesmo quando parte do comércio foge aos canais legais.

O UNODC constatou que os cultivos de coca em Santa Cruz representam apenas 0,5% do total do Trópico de Cochabamba, e que houve uma redução de 71% da superfície cultivada em comparação com o ano anterior, embora o país registre aumento geral no cultivo.

Especialistas apontam que a dinâmica mudou, com pasta base vindo do Peru sendo transformada em cloridrato de cocaína na Bolívia, e cargas partindo de hangares em Santa Cruz rumo ao Paraguai, Argentina, Brasil e Europa.

Por que líderes estrangeiros se instalam na cidade

Analistas destacam a posição estratégica de Santa Cruz, por sua proximidade com o Brasil e com a hidrovia Paraguai-Paraná, o que facilita acesso a portos e rotas de escoamento.

Além da logística, o crescimento econômico e o mercado imobiliário local criam oportunidades para ocultar recursos, e especialistas dizem que é um lugar fácil para ocultar lavagem de dinheiro.

O promotor Lincoln Gakiya afirmou que o PCC tem facilidade para ir e vir na Bolívia, e que “o PCC domina a Bolívia”, por conta de documentos falsos e corrupção que facilitam a permanência de faccionados.

Como o crime se mistura a negócios legais e desafia o controle

Investigadores apontam que a integração entre estruturas legais e ilícitas torna difícil notar e interromper fluxos de dinheiro e mercadorias, porque investimentos em imóveis e comércio servem como disfarce plausível.

O Grupo de Ação Financeira incluiu a Bolívia na lista de países com “deficiências estratégicas” no combate à lavagem de dinheiro, o que, segundo especialistas, favorece a infiltração de organizações criminosas.

Há relatos de vazamentos e fragilidade judicial em operações passadas, e casos anteriores mostram que avisos internos permitiram que suspeitos escapassem, como quando Marset disse na televisão uruguaia: “Eles me avisaram, sim. Fiz as malas com minhas roupas, as roupas das crianças e fui embora”.

A resposta do Estado e os limites para desmantelar facções

O novo governo boliviano tem reforçado cooperação internacional, reatando vínculos com agências dos Estados Unidos e formalizando acordos com países vizinhos para troca de inteligência.

Autoridades locais afirmam querer enviar a mensagem de que a Bolívia não é mais “território para o tráfico”, e operações recentes resultaram em prisões e extradições, entre elas a transferência de Marset para os Estados Unidos, onde é investigado por tráfico e lavagem.

Apesar disso, os desafios permanecem, porque grupos como o PCC se beneficiam de rotas, infraestrutura e da proximidade com áreas produtoras, e porque, nas palavras do vice-ministro, “Hoje foi Sebastián Marset, mas amanhã pode ser outra pessoa a se aproveitar desse ‘caldo’ de cocaína feito com coca ilegal produzida em nosso país”.

Relatórios alarmam para o aumento nas apreensões dentro da Bolívia, com a apreensão de pasta base crescendo 73% e a de cloridrato de cocaína subindo 115%, dados que reforçam a urgência de ações coordenadas entre países, mais controles financeiros eficazes e fortalecimento das instituições de justiça.

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