quarta-feira, julho 22, 2026

Na Colômbia, Tigre, K-pop e Camisa da Seleção Viram Símbolos Eleitorais

Share

A Colômbia vive um momento decisivo neste domingo (21), quando eleitores vão às urnas para o segundo turno da eleição presidencial. A disputa, que coloca frente a frente o candidato de ultradireita Abelardo de la Espriella e o esquerdista Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro, é um verdadeiro embate de símbolos. Desde gestos militares até referências à cultura pop coreana, a campanha colombiana revela como elementos do cotidiano e da identidade nacional são cooptados para mobilizar eleitores em um cenário de profunda polarização política, com ecos que ressoam até no Brasil.

O que você precisa saber

  • O segundo turno na Colômbia opõe o ultradireitista Abelardo de la Espriella ao esquerdista Iván Cepeda, em uma eleição polarizada.
  • Espriella adota símbolos de força e ordem, como a continência militar, o apelido de “El Tigre” e a apropriação da camisa da seleção nacional.
  • Cepeda, com uma campanha mais sóbria, busca conexão com a juventude através do K-pop e do gesto do “coração coreano”.
  • A utilização da camisa da seleção colombiana por Espriella gerou polêmica e comparações com o uso da camisa verde e amarela por eleitores de Jair Bolsonaro no Brasil.
  • A eleição pode encerrar o primeiro governo de esquerda da Colômbia, um país com histórico de conflito armado.

A Batalha dos Símbolos na Colômbia

As campanhas de Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda não poderiam ser mais distintas em termos de estilo e apelo simbólico. Espriella, sem experiência prévia em cargos públicos, construiu uma imagem quase teatral, focada na força e na ordem. Seus comícios são marcados por demonstrações de fervor patriótico e referências militares, buscando resgatar valores que, segundo ele, foram perdidos.

Do outro lado, Iván Cepeda, um filósofo e defensor dos direitos humanos, optou por uma campanha mais austera. Para atrair o eleitorado, especialmente o jovem, Cepeda e sua equipe mergulharam na cultura pop global, utilizando elementos inesperados para um político de sua trajetória, como o K-pop.

Essa dicotomia de abordagens reflete não apenas as personalidades dos candidatos, mas também as divisões ideológicas que fraturam a sociedade colombiana, um país que ainda lida com as cicatrizes de mais de seis décadas de conflito armado interno.

O Tigre e a Continência: A Estratégia da Ultradireita

Abelardo de la Espriella transformou sua campanha em um espetáculo de simbolismo ultradireitista. Um de seus gestos mais marcantes é a continência militar. Toda vez que encerra uma intervenção pública, Espriella leva a mão direita ao cenho, baixa-a rapidamente e brada: “Firme pela pátria!”. Embora não tenha formação militar, o gesto inspirou seus apoiadores, que o replicam como uma saudação.

Seus atos públicos frequentemente contam com a presença de militares reformados, vestidos com trajes camuflados, que se alinham durante o hino nacional. Em seus discursos, Espriella faz questão de enaltecer o trabalho dos soldados e promete que, se eleito, sua cerimônia de posse será realizada em um batalhão, um aceno claro às forças armadas, que tiveram um papel complexo no conflito interno do país, onde uma comissão estimou que mais de 400 mil membros foram vítimas.

Outro símbolo central de sua campanha é o apelido “El Tigre”. Segundo sua página oficial, o termo surgiu de uma declaração do ex-presidente Álvaro Uribe, que em 2024 afirmou que a Colômbia precisava de “um tigre” ou “uma tigresa” na Presidência. Espriella abraçou a imagem do felino, à semelhança de outros líderes de direita na América, como o argentino Javier Milei com seu leão e o americano Donald Trump com a águia-careca. Essa iconografia é reforçada por vídeos de inteligência artificial e fogos de artifício em seus palanques, criando uma atmosfera de grandiosidade e poder.

O Coração Coreano e a Geração Z: O Apelo da Esquerda

Na contramão da estética militarista de Espriella, Iván Cepeda buscou inspiração no outro lado do mundo para mobilizar seu eleitorado: a Coreia do Sul. Sua campanha, que alguns especialistas consideraram inicialmente “enfadonha” por sua sobriedade, encontrou um nicho poderoso nos “k-popers”, os fãs da música sul-coreana K-pop.

O gesto simbólico adotado pelo senador é o “coração coreano”, feito ao cruzar a ponta do indicador e o polegar para formar um pequeno coração. Esse gesto, popularizado por artistas de K-pop, ressoa com milhões de jovens da Geração Z em todo o mundo. Na Colômbia, esses jovens se organizaram para apoiar as propostas de Cepeda, um defensor dos direitos humanos de 63 anos, por meio de danças, cartazes e vídeos que incorporam músicas do BTS e de outros grupos. Encontros presenciais, especialmente em Bogotá, também foram realizados, mostrando a capacidade de mobilização dessa base de fãs.

A Camisa da Seleção: Um Símbolo em Disputa, com Ecos no Brasil

Talvez o símbolo mais controverso e com maior ressonância para o público brasileiro seja a camisa amarela da seleção de futebol da Colômbia. No contexto da Copa do Mundo de Futebol de 2026, Abelardo de la Espriella e seus seguidores adotaram o uniforme da seleção como um símbolo de sua campanha. Isso gerou um grande desconforto na esquerda, que os acusou de se apropriar de um símbolo nacional que deveria representar a todos os colombianos, independentemente de suas preferências políticas.

Muitos apoiadores de Espriella votaram no primeiro turno vestindo camisas com os nomes de craques da seleção, como James Rodríguez e Luis Díaz. Essa estratégia é notavelmente semelhante à empregada no Brasil, onde eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro têm usado a camisa verde e amarela da seleção brasileira como um forte símbolo político nos últimos anos, dividindo o significado do manto nacional.

Em uma tentativa de desvincular a camisa da direita, o próprio presidente Gustavo Petro e alguns de seus ministros também passaram a vesti-la publicamente. A disputa pelo símbolo chegou aos tribunais: no início de junho, uma juíza proibiu Espriella de usar a camisa da seleção em sua campanha, mas a Suprema Corte suspendeu essa decisão logo em seguida, permitindo que a “batalha das camisas” continuasse.

O resultado das urnas neste domingo (21) não definirá apenas quem governará a Colômbia, mas também qual narrativa simbólica prevalecerá em um país profundamente dividido. A apropriação de símbolos nacionais e a busca por novas formas de engajamento, seja através da tradição militar ou da cultura pop, mostram a complexidade das campanhas políticas modernas e o poder dos símbolos na formação da identidade política.

Fontes consultadas

📚 Fontes consultadas:
Equipe ViralNews
Equipe ViralNewshttp://viralnews.com.br
Equipe editorial responsável pela seleção, revisão e atualização de conteúdos do ViralNews. Para sugestões e correções: contato@viralnews.com.br

Leia Mais

Saiba Mais