terça-feira, julho 21, 2026

Pedidos de autoexclusão em bets crescem 588% durante a Copa do Mundo

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O Brasil registrou um aumento “explosivo” no número de pessoas que solicitaram o bloqueio de seus CPFs em plataformas de apostas online, as chamadas “bets”, durante as primeiras semanas da Copa do Mundo. Dados exclusivos da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, obtidos pela BBC News Brasil, apontam para um crescimento de 588% na média diária de pedidos de autoexclusão, um indicativo da crescente preocupação com o jogo compulsivo e a busca por mecanismos de proteção em um mercado recém-regulamentado e com intensa publicidade.

O que você precisa saber

  • Entre 15 e 28 de junho, período da Copa do Mundo, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão recebeu 250.129 pedidos de bloqueio ou prorrogação, uma média de 17.866 por dia.
  • Esse número representa um salto de 588% em comparação com a média diária de 2.594 pedidos registrada em maio, antes do torneio.
  • A Copa do Mundo de 2026 foi a primeira com o mercado de apostas esportivas regulamentado no Brasil, o que intensificou a exposição e publicidade das bets.
  • Os motivos para a autoexclusão mudaram: se antes a “perda de controle sobre o jogo” era o principal, durante a Copa a “prevenção contra uso de dados” assumiu a liderança, seguido pela perda de controle.
  • Especialistas e grupos de apoio apontam que o aumento reflete o medo de perder o controle, o uso preventivo da ferramenta e a maior conscientização sobre os riscos financeiros e emocionais do jogo.

A explosão dos números e seus motivos

Os números divulgados pela SPA são contundentes. Nas duas primeiras semanas da Copa do Mundo, de 15 a 28 de junho, foram processados 250.129 pedidos de autoexclusão ou prorrogação de bloqueio. Isso se traduz em uma média de 17.866 solicitações por dia. Para contextualizar, no período de 11 a 25 de maio, antes do início do torneio, a média diária era de 2.594 pedidos. O salto de 588% é um marco que acende um alerta sobre o impacto das apostas na vida dos brasileiros.

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão, lançada em dezembro de 2025 pelo governo federal, permite que o cidadão bloqueie o acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas com um único comando, impedindo que o CPF seja utilizado para jogar. Essa ferramenta se tornou crucial em um cenário onde o futebol, paixão nacional, se mescla com a intensa publicidade das bets.

Um aspecto notável é a mudança nos motivos alegados para a autoexclusão. Antes da Copa, a “perda de controle sobre o jogo” era a principal razão (43,56%). Durante o torneio, contudo, a “prevenção contra uso de dados” (29,5%) tornou-se o motivo mais frequente, seguido pela “perda de controle” (24,13%). Essa alteração sugere que, além dos que já enfrentavam problemas de compulsão, um novo perfil de usuário, preocupado com a exposição e o uso indevido de suas informações, buscou a proteção da ferramenta.

Para a SPA, o crescimento é resultado de uma combinação entre a maior exposição do público às apostas durante a Copa, a divulgação da plataforma de autoexclusão e a conscientização sobre os riscos. Já entidades do setor, como a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), avaliam que o aumento também reflete a maior divulgação da ferramenta e seu uso preventivo, não necessariamente um aumento direto nos casos de jogo compulsivo.

O drama pessoal e o alerta dos especialistas

Por trás dos números, há histórias de pessoas como Bruno, um engenheiro que pediu autoexclusão há cerca de dois meses. Com um histórico de dois anos de apostas e perdas que somam R$ 122 mil, ele se endividou e teve que se afastar de sua paixão, o futebol. “Hoje eu nem gosto mais de futebol”, desabafa Bruno, que precisou se isolar durante a Copa para evitar recaídas. Seu relato ilustra o lado sombrio da compulsão, onde o prazer pelo esporte é substituído pela angústia do vício.

Lucas Louback, gestor da ONG Bonde e coordenador da campanha “Brasil contra Bets”, considera os dados alarmantes. Ele destaca que a Copa do Mundo, com sua centralidade na cultura brasileira, se tornou uma “oportunidade valiosa” para as empresas de apostas, transformando a paixão nacional em um campo de disputa pela publicidade das bets. Para Louback, o alto número de autoexclusões pode indicar que muitos usuários perceberam o risco de perder o controle. “É alarmante que tanta gente tenha sentido necessidade de recorrer a essa ferramenta em um período curto”, afirma.

L.C.S., relações públicas do grupo Jogadores Anônimos, reforça que o aumento também tem a ver com o “medo de quebrar”. Ele relata que muitos que já haviam tido prejuízos em Copas anteriores, mesmo antes da regulamentação, decidiram se proteger preventivamente. Para o porta-voz, o pedido de autoexclusão é um momento de “lucidez” ou até um “pedido de socorro” de quem reconhece o risco. No entanto, ele pondera que o número de autoexcluídos ainda é pequeno se comparado aos pelo menos 25 milhões de apostadores cadastrados no Brasil, o que representa mais de 10% da população.

Novas regras e o futuro pós-Copa

A repercussão do impacto das bets durante a Copa do Mundo tem mobilizado o governo federal e governos locais. Na semana passada, o governo federal anunciou novas diretrizes para a publicidade de apostas, exigindo que as empresas exibam alertas claros sobre os riscos de perda de dinheiro e dependência, além de proibir anúncios que induzam a apostas baseadas na suposta expertise de comentaristas ou influenciadores. Estados e municípios também têm adotado medidas restritivas.

Apesar do aumento nos pedidos de autoexclusão, especialistas alertam que os efeitos mais graves da compulsão por jogo podem se manifestar apenas meses após o fim da competição. L.C.S. explica que, muitas vezes, o apostador tenta reverter os prejuízos jogando ainda mais, agravando a situação antes de buscar ajuda. “Esse problema vai aparecer, mas não será imediatamente. Pode levar alguns meses”, prevê. Os Jogadores Anônimos, inclusive, já estão se preparando para receber mais pessoas nos próximos meses, expandindo o número de salas de reunião no país.

Louback, da campanha “Brasil contra Bets”, defende que a autoexclusão, embora importante, atua quando o problema já está instalado. Ele argumenta pela necessidade de políticas de prevenção mais rigorosas, incluindo restrições à publicidade das bets e projetos de lei que visam limitar esse tipo de propaganda. A discussão se estende para além da ferramenta de bloqueio, buscando evitar que mais brasileiros cheguem à situação de dependência.

Aviso: este conteúdo é informativo e não representa recomendação individual de investimento, crédito, compra, venda ou decisão financeira. Antes de tomar decisões financeiras, avalie seu perfil, seus objetivos e, se necessário, procure orientação profissional.

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Fontes consultadas

  • Fonte 1 informada ao ViralNews pelo sistema de curadoria automatizada
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Equipe ViralNews
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