Após anos de violência e ameaças, Nany Cardoso encontrou nos aplicativos de transporte uma rota para reconstruir sua vida e garantir o sustento das três filhas. Sua jornada, que incluiu jornadas de trabalho de até 17 horas, reflete a realidade de milhares de mulheres no Brasil que, ao romperem com relacionamentos abusivos, buscam na flexibilidade e no ganho imediato das plataformas digitais uma chance de autonomia financeira. No entanto, essa nova trajetória também expõe essas trabalhadoras a desafios como a precarização, a desigualdade de renda e a insegurança.
O que você precisa saber
- A dependência financeira é um fator crucial que impede 61% das mulheres de denunciar parceiros agressores.
- Aplicativos de transporte oferecem uma alternativa de renda rápida e flexibilidade de horários, essencial para mulheres com responsabilidades domésticas e de cuidado.
- Apesar da autonomia, motoristas de aplicativo enfrentam precarização, com menor proteção social e, em média, ganhos 40% inferiores aos dos homens.
- Insegurança e assédio são desafios recorrentes, com 59% das motoristas relatando já terem sido assediadas.
- O número de mulheres motoristas de aplicativo cresceu 62% em quatro anos, totalizando 103,3 mil no Brasil.
Autonomia e o desafio da dependência financeira
A história de Nany Cardoso não é um caso isolado. Em 2024, o Brasil registrou 187,9 mil mulheres vítimas de violência doméstica, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Um dos mais significativos obstáculos para que essas mulheres rompam o ciclo de agressões é a dependência econômica. Pesquisas indicam que 61% das vítimas deixaram de denunciar seus parceiros por dependerem financeiramente deles.
A professora Noézia Ramos, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que “as mulheres têm dificuldade de romper com as agressões porque percebem que não conseguem sobreviver sozinhas. Dependem da renda do marido e, quando se dão conta de que precisam se manter, precisam buscar uma fonte de renda”. Essa busca se intensifica em um cenário onde as mulheres enfrentam maiores taxas de desemprego (53,1% empregadas contra 72,1% dos homens, segundo a OIT) e uma pesada carga de trabalho doméstico e de cuidado com os filhos, que leva 31,7% delas a não procurar emprego. Além disso, 17,1% das mulheres são impedidas de trabalhar ou estudar por seus maridos, em uma dinâmica de controle e violência.
Diante dessas barreiras, o trabalho informal, como o transporte por aplicativo, surge como uma “alternativa em um cenário de desespero”, nas palavras de Ramos. A advogada Andrea Sampaio, que pesquisou a categoria, destaca que a atividade oferece uma oportunidade rápida de geração de renda e maior autonomia, “dando segurança para escolher estar ou não em um relacionamento e que permite conciliar trabalho e vida pessoal”.
A realidade do trabalho por aplicativo: flexibilidade e precariedade
Para Julia Monteiro, que enfrentava desemprego e violência por parte da ex-mulher em Porto Alegre (RS), os aplicativos foram uma solução para sair de casa e obter um retorno financeiro. “Dava um alívio não sofrer violências no tempo em que estava trabalhando”, relata. A possibilidade de ganho imediato é o principal atrativo para 73% das motoristas, e 37% afirmam ganhar mais do que em empregos anteriores, segundo levantamento da Think Eva. A flexibilidade de horários é outro fator decisivo para 78% delas, permitindo que mulheres como Nany Cardoso conciliem o trabalho noturno com o cuidado dos filhos durante o dia.
Contudo, a autonomia conquistada tem um custo. Apesar do crescimento de 62% no número de mulheres motoristas nos últimos quatro anos, totalizando 103,3 mil no Brasil (Cebrap), elas ainda representam apenas 6% do total de motoristas. Especialistas alertam para a precarização do trabalho por aplicativo.
“Há uma sensação de que estão trabalhando para si mesmas, mas falta proteção social em casos de acidente ou doença. Também faltam políticas públicas e creches. Já presenciei mulheres trabalhando com os filhos no carro por não terem onde deixá-los”, afirma Andrea Sampaio. Um estudo da OIT e da ONU Mulheres revelou que mulheres ganham, em média, 40% menos que homens nas plataformas. Noézia Ramos atribui essa diferença à “tripla jornada” feminina e a preconceitos que podem influenciar as avaliações dos passageiros. Carina Trindade, presidente do Sindicato dos Motoristas em Transportes Privados por Aplicativos do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), relata ter constatado que corridas tocam primeiro para homens e com valores maiores.
Os riscos da estrada: insegurança e assédio
Além das questões econômicas, as motoristas enfrentam a insegurança e o assédio. Levantamento da plataforma GigU aponta que 59% das motoristas já foram assediadas. “Eu preciso falar grosso quando os caras estão de conversinha para ver se entendem”, desabafa Carina Trindade. Nany Cardoso, por sua vez, foi vítima de assalto, tendo seu telefone roubado em uma rua deserta.
Apesar da existência de opções que permitem escolher motoristas mulheres, Trindade levanta uma preocupação: “Nunca sabemos se realmente é uma mulher ou homem. Aceitamos, acreditando ser uma passageira, mas elas podem chamar a corrida para eles e colocam as motoristas em risco”.
Questionada sobre as denúncias, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa grandes plataformas, informou que não há diferenciação de remuneração baseada em gênero. A Uber e a 99, por sua vez, destacam investimentos em segurança, com a 99 alegando uma queda de 33% nos incidentes sexuais graves com mulheres nos últimos dois anos.
O que muda agora e o que o leitor deve acompanhar
O trabalho por aplicativos oferece um caminho vital para a autonomia financeira de mulheres em situação de vulnerabilidade, permitindo-lhes romper com ciclos de violência e reconstruir suas vidas. No entanto, a precarização, a desigualdade salarial e a insegurança representam desafios significativos que exigem atenção. É fundamental que haja um acompanhamento contínuo das políticas públicas de proteção social e das práticas das plataformas, visando garantir um ambiente de trabalho mais justo e seguro para todas as motoristas. O sonho de Nany Cardoso, de terminar de construir sua casa, simboliza a esperança e a resiliência dessas mulheres na busca por um futuro mais digno.
Fontes consultadas
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica.
Este conteúdo é informativo e não representa recomendação individual.
