Mister Hull, engenheiro inglês que implantou ferrovias no Ceará e estudou as secas, veja a trajetória de Francis Hull, suas missões pelo mundo e o legado em Fortaleza

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A trajetória de Francis Hull, de Wimbledon a Fortaleza, seu papel nas ferrovias da região, as pesquisas sobre o ciclo das secas e a avenida Mister Hull na Regional 3

Francis Reginald Hull, conhecido como Mister Hull, nasceu em Wimbledon em 1872 e teve uma vida marcada por obras de engenharia, missões militares e paixão pela astronomia.

Ele atuou em ferrovias no Brasil e no exterior, serviu durante a Primeira Guerra Mundial e voltou ao Ceará para se dedicar a estudos sobre meteorologia e astronomia amadora.

Ao longo da vida, deixou registros que hoje justificam a homenagem da cidade a seu nome, na forma da avenida Mister Hull em Fortaleza, e detalhes de sua rotina social e científica na capital cearense, conforme informação divulgada pelo g1.

Aventuras profissionais e funções pelo mundo

Aos 20 anos, Mister Hull veio ao Brasil como engenheiro-assistente da São Paulo Railway, participando de levantamentos topográficos e do ramal da Serra do Mar.

De volta ao Reino Unido, aperfeiçoou-se em astronomia e agrimensura no Real Observatório de Greenwich, conhecimentos que marcariam suas pesquisas posteriores.

No início do século 20, foi nomeado superintendente-geral da Brazil North Eastern Railway em 1913, responsável pelas estradas de ferro de Sobral e Baturité, importantes para o escoamento regional.

Entre missões profissionais, passou por países e funções diversas, incluindo perfuração de minas de ouro na África do Sul, supervisão de abastecimento de água e construção de represas na Grã-Bretanha, e consultoria ferroviária na Rússia, onde recebeu condecorações do czar Nicolau II e do rei George V, da Inglaterra.

Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1915, juntou-se aos Engenheiros Reais britânicos e serviu no território do atual Iraque, chegando a assumir o cargo de Governador da Mesopotâmia.

Do cacau à literatura, a passagem pela Bahia

Em 1921, retornou ao Brasil e atuou como vice-cônsul do Reino Unido em Ilhéus, na Bahia, onde coordenou a construção da ferrovia entre Ilhéus e Vitória da Conquista, beneficiando o escoamento do cacau.

Segundo o filho Julian Hull, Jorge Amado pode ter se inspirado em Mister Hull para criar personagens do romance “São Jorge de Ilhéus”, de 1944, ao citar engenheiros ingleses que trabalharam nas estradas de ferro da região.

Vida em Fortaleza e observatório particular

Em 1933, com 61 anos, Francis Hull voltou ao Ceará para morar em Fortaleza e passou a dedicar-se às observações astronômicas e às pesquisas sobre o ciclo das secas.

Ele montou um observatório em casa, morou em um sobrado em frente à ladeira da Prainha, na Praia de Iracema, e participava da vida social da cidade, frequentando clubes e organizando bailes carnavalescos na rua onde vivia.

A residência onde trabalhava ficava próxima ao que viria a ser o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, e mais tarde foi desapropriada para as obras do equipamento cultural.

Pesquisas sobre as secas e legado científico

Mister Hull investigou a possibilidade de prever secas a partir de fatores climatológicos, estabelecendo correlações entre os anos de estiagem no Ceará e o ciclo das manchas solares, método que divulgou em conferências da época.

Conforme Rubens de Azevedo, “A vida de Francis Hull poderia servir de inspiração para um romance ou um filme épico de aventuras”, frase usada para resumir sua carreira e seu interesse científico.

O filho Julian Hull também defendeu essa relação entre manchas solares e secas, embora esse método não faça parte das práticas meteorológicas atuais para monitoramento de estiagens.

Homenagem, enterro e a avenida que leva seu nome

Mister Hull morreu em março de 1951, aos 78 anos, e está enterrado no cemitério São João Batista, apesar de ter deixado em testamento o desejo de ser lançado ao mar em uma jangada, com o corpo envolvido na bandeira da Inglaterra, após distância de três milhas.

Julian Hull relatou, em entrevista, que “No episódio da jangada, seria do amor que ele tinha ao Ceará, mas, infelizmente na época, a polícia não consentiu num enterro dessa maneira, e ele está enterrado no cemitério São João Batista”.

O corpo foi sepultado com a farda do Exército Britânico e com a bandeira da Inglaterra, segundo o filho.

A avenida Mister Hull em Fortaleza tem cerca de seis quilômetros, começando próximo às rodovias estaduais CE-085 e CE-020 e terminando na avenida Bezerra de Menezes, passando pelos bairros Antônio Bezerra, Padre Andrade, Pici e Presidente Kennedy.

A avenida integra a Regional 3 da cidade, que também inclui os bairros Quintino Cunha, Olavo Oliveira, Bairro Ellery, Monte Castelo, São Gerardo, Parquelândia, Amadeu Furtado, Rodolfo Teófilo, Farias Brito e Parque Araxá.

Sobre indicadores sociais da região, “A Parquelândia é o único bairro da região com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) inferior a 0,007, considerado médio”, enquanto outros bairros têm IDH baixo, como São Gerardo, Amadeu Furtado, Farias Brito e Parque Araxá, e os demais apresentam índices considerados muito baixos, conforme levantamento regional.

O legado de Mister Hull combina engenharia, serviço diplomático, aventuras globais e interesses científicos locais, e permanece vivo na toponímia de Fortaleza e nas lembranças de estudiosos e familiares.

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