Como máscaras cara-grande saíram do Mato Grosso para museus e leilões, que mudanças sufocaram rituais, e por que os Apyãwa reivindicam controle sobre esse patrimônio
As máscaras cara-grande do povo Apyãwa, conhecidas também como Ypé ou Upé, circulam hoje em museus e mercados internacionais, mesmo diante de proibições e controvérsias.
Peças oferecidas no exterior têm preços altos e histórias complexas, ao mesmo tempo em que versões vendidas fora das aldeias nem sempre preservam a sacralidade original.
Essas informações são fruto de relatos e apurações sobre a circulação das máscaras, e ganham contexto a partir da visita de representantes Apyãwa à Alemanha, conforme informação divulgada pelo g1
Origens, comércio e transformação estética
Na década de 1960 as máscaras começaram a integrar o circuito de colecionadores que passavam pelo entorno do Rio Araguaia.
Segundo relatos, a manufatura familiar se tornou uma estratégia de subsistência diante da demanda, e peças não-ritualísticas foram criadas para o mercado.
O artigo registra preços de mercado, com ofertas que variam de 600 doláres a 17 mil dólares (R$ 3 mil a R$ 90 mil), e anúncios que descrevem as máscaras como artefatos espirituais raros.
Rituais, sacralidade e réplicas dessacralizadas
Para os Apyãwa, as máscaras usadas nas festas da cara-grande são objetos sagrados, confeccionadas com matérias-primas nativas e destruídas após o uso.
Na exposição na Alemanha, representantes indígenas explicaram que as peças expostas e vendidas são versões adaptadas, dessacralizadas, que preservam formas, mas alteram elementos centrais do ritual.
Um anúncio chegou a afirmar, "Essas máscaras são fundamentais para a prática espiritual dos Tapirapé, sendo utilizadas principalmente em contextos cerimoniais para estabelecer contato com forças sobrenaturais e espíritos ancestrais," texto citado em vendas online.
Leis, restrições e dificuldades práticas
A legislação brasileira proíbe a comercialização de peças feitas com matéria-prima de animais silvestres desde 1967, independentemente da data de produção.
Essas máscaras integram a Lista Vermelha de Objetos Culturais Brasileiros em Risco do ICOM, por sua vulnerabilidade ao tráfico ilícito.
Ao mesmo tempo, especialistas chamam atenção para a tensão entre proteção jurídica e o direito das comunidades de compartilhar ou gerar renda a partir de seus saberes.
Reivindicações, vozes indígenas e repatriações
Representantes Apyãwa usaram sua ida à Alemanha para explicar o significado das peças, e para afirmar o protagonismo da comunidade na gestão do próprio patrimônio.
Nivaldo Paroo'i declarou que "As pessoas que comercializaram as máscaras para cá [Europa], na nossa visão, não sabiam realmente se elas eram para rituais," descrevendo o impacto das primeiras vendas sobre a aldeia.
Koxamare'i afirmou, "Para meu povo é muito importante. Um dia, as futuras gerações Apyãwa vão vir também conhecer."
Dados oficiais apontam que, "Em 2020, 917 indivíduos Apyãwa foram contabilizados por dados oficiais levantados pelo Instituto Socioambiental (ISA)," informação que mostra a dimensão reduzida do grupo e a sensibilidade sobre sua memória material.
Máscaras que hoje compõem acervos de museus como o MASP, o Musée du Quai Branly e o Metropolitan Museum of Art são alvo de debate sobre origem e repatriação, e disputas formais já foram apresentadas pelo governo brasileiro em listas de devolução.
Para as lideranças Apyãwa, a circulação das peças exige cuidados que garantam respeito aos rituais, compensação justa e, sobretudo, controle comunitário sobre como seus objetos e histórias são retratados no exterior.
