Fitti canta Ney Matogrosso: show performático reimagina 16 clássicos com teatralidade, vigor vocal e arranjos modernos no Teatro Carlos Gomes em abril de 2026

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Em ‘Fitti canta Ney Matogrosso’, o cantor e ator transforma o repertório de Ney em espetáculo visceral, com direção musical de Pupillo e linguagem cênica que mistura rock, forró e cabaré

Data e local: 5 de abril de 2026 no Queremos! Festival no Teatro Carlos Gomes (Rio de Janeiro, RJ), apresentação em que o intérprete pernambucano apresentou 16 faixas do cancioneiro associado a Ney, com nova leitura estética.

Cotação: ★ ★ ★ ★ ★, avaliação que salda a potência do show, entre os destaques da noite, pela fusão entre voz, corpo e jogo cênico.

O espetáculo abriu com sons atmosféricos que antecederam a entrada ao som de “Homem de Neanderthal”, faixa que marcou a trajetória inicial do homenageado, e logo mostrou que a ideia era reinterpretar, não replicar.

Estrutura e direção musical

A direção artística construiu um fio dramático, com produção pensada para a cena e mudanças de figurino realizadas sobre um biombo, imagem fortemente evocativa de outros espetáculos do repertório referenciado.

Na condução sonora, o baterista Pupillo assumiu a direção musical, com banda formada por guitarras, teclados e baixo, que deu peso roqueiro a números como “Tem gente com fome” e nuances sintéticas a canções como “Balada do louco”.

Interpretação e teatralidade

Fitti, também ator, imprimiu à interpretação um caráter performático, ao mesmo tempo íntimo e ritualístico. O artista usou a voz, o corpo e olhar como ferramentas dramáticas, sem cair no terreno do cover tradicional.

Em cena, a capacidade de friccionar gêneros e padrões sociais ficou evidente em faixas como “Mal necessário”, interpretada depois de uma troca de roupa atrás do biombo, e em um momento de canto sentado, para a canção “Viajante”, que ampliou a tensão lírica da noite.

O repertório reimaginado

O roteiro percorreu várias fases da obra revisitada, com escolhas que apontaram para o ecletismo autoral: do rock e do bolero pop à influência do brega e do forró, sempre com arranjos que deram nova vida às melodias.

Houve espaço para a força política de “O patrão nosso de cada dia”, apresentada de forma contida, e para a sensualidade de “Seu tipo”, quando o cantor desceu para a plateia e envolveu os espectadores em interação corporal e vocal.

Também surgiram recriações sagazes, como a versão em clima pernambucano de “Dívidas de amor”, faixa originalmente pouco lembrada na carreira do homenageado, e a leitura cabaretesca de “Mente, mente”.

Momentos que marcaram a estreia carioca

O bis trouxe um duo de violão e voz, com destaque para “Noite severina”, celebração das raízes nordestinas do intérprete, que reforçou o orgulho regional e a personalidade autoral do projeto.

Em outro ponto alto, Fitti ressignificou versos de um clássico forrozeiro ao cantá-los na condição de homem trans, movimento que fez da música um gesto político e afetivo, ao mesmo tempo.

Ao longo do set, o artista evocou o verso do bolero, chamando-se de “cara meio estranho”, trecho que virou marca interpretativa e que ajudou a construir a identidade do espetáculo.

A leitura oferecida mostrou que regravar não significa anular autoria, e que a interpretação, quando bem amarrada à cena, pode revelar camadas inéditas das canções, tornando-as contemporâneas, urgentes e sensíveis.

No total, a estreia carioca de “Fitti canta Ney” consolidou o projeto como espetáculo pleno, em que voz, direção e arranjos se articulam para transformar um repertório consagrado em experiência nova, emotiva e provocadora.

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