Veja por que cada manifestação do presidente dos EUA e a resposta do Irã provocam alta ou queda no preço do petróleo, mesmo quando a oferta não muda
Declarações públicas sobre negociações, tréguas e ameaças têm movimentado os mercados de energia em ritmo acelerado.
Em minutos, expectativas sobre o futuro do conflito alteram decisões de compra e venda, e com isso as cotações reagem.
No caso mais recente, episódios de alta e queda do mercado ocorreram logo após falas de Donald Trump e respostas iranianas, conforme informação divulgada pelo g1
Por que opiniões e sinais políticos mexem com o preço do petróleo
O mercado reage mais às expectativas do que à oferta física imediata, porque o petróleo é central para combustíveis, transporte e geração de energia.
Quando surgem sinais de redução de tensão, investidores diminuem apostas em cortes de suprimento, e as cotações caem, mesmo que nada tenha mudado na produção, explica Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Segundo ele, “As quedas no preço do petróleo ocorrem invariavelmente sempre que surgem sinais de redução na tensão geopolítica”, e qualquer indicação de melhora no fluxo pelo Estreito de Ormuz já altera rapidamente a leitura do mercado.
Oscilações recentes, números e exemplos
Após um discurso de Donald Trump sobre a guerra no Oriente Médio, o preço do barril Brent teve alta de 4,9%, chegando a US$ 106,16, cerca de R$ 547,78, em uma quinta-feira.
Em outra ocasião, a primeira postagem de Trump sobre possíveis negociações com o Irã para encerrar a guerra provocou uma queda quase de US$ 15 em poucos minutos, embora a interrupção do conflito não tenha ocorrido.
Ao longo do conflito, o preço do petróleo subiu de cerca de US$ 70 para cerca de US$ 110, gerando uma crise energética sem precedentes, e episódios pontuais ilustram como o mercado revisa expectativas com rapidez.
Em 9 de março, Trump disse que a guerra contra o Irã estaria “praticamente concluída” e poderia terminar em breve, provocando queda do Brent de aproximadamente US$ 98,96 para US$ 87,8 no dia seguinte.
Quando autoridades iranianas desmentiram as negociações, as cotações voltaram a subir, por exemplo de US$ 87,8 para US$ 91,98, em seguida.
Retórica como ferramenta, e os riscos da informação imprecisa
Para o Instituto de Estudos de Energia de Oxford, o episódio ilustra o peso das declarações políticas num mercado muito sensível a notícias sobre conflitos e riscos de interrupção da oferta.
Bassam Fattouh, diretor do IOES, afirma, “A administração dos EUA tem intervindo pesadamente no mercado de petróleo por meio de fluxos de informação e mensagens, que nem sempre são precisas ou corretas”.
Ele acrescenta que Washington tem buscado, “soluções criativas diariamente para manter o preço do petróleo estável”, o que tende a aumentar a volatilidade das cotações no curto prazo, e revela a preocupação das autoridades em conter impactos econômicos.
O colunista Javier Blas descreve a estratégia de Trump como forma de “jawboning”, quando intervenções verbais são usadas para influenciar o comportamento do mercado.
Ele escreveu, “O presidente Donald Trump fez intervenções verbais constantes e eficazes”, e que esse tipo de atuação ajudou, em vários momentos, a conter compras motivadas por pânico.
Versões conflitantes e impacto sobre a volatilidade
Analistas destacam que o conflito tem sido marcado por versões divergentes entre os envolvidos, o que dificulta a leitura e mantém o mercado sempre em ajuste.
Pedro Galdi, da AGF, explica, “O presidente dos EUA sinaliza que está ocorrendo avanços nas negociações, por outro lado fontes do Irã desmentem”, o que alterna entre expectativa de trégua e risco de continuidade do conflito.
Para Galdi, essa dinâmica explica por que o preço do petróleo internacional segue em patamar elevado e com forte influência de movimentos de especulação, e por que as cotações podem mudar bruscamente conforme novas mensagens surgem.
Em suma, no cenário atual, mais do que variações imediatas na produção, o que move o mercado e altera o preço do petróleo são as informações, as interpretações e as reações rápidas de investidores ao noticiário político.
