sexta-feira, junho 5, 2026

Como a IA virou ferramenta para espalhar vídeos falsos e o que plataformas fazem para conter a desinformação

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A ascensão da IA na guerra de narrativas e a criação de realidades fictícias

A inteligência artificial (IA) está redefinindo o campo de batalha, não com tanques e mísseis, mas com vídeos falsos e narrativas distorcidas. Em um cenário geopolítico cada vez mais tenso, a tecnologia emerge como uma ferramenta poderosa para a guerra de informação, moldando percepções e influenciando o debate público.

Governos e grupos usam algoritmos avançados para gerar conteúdos que vão desde ataques militares fictícios a líderes ridicularizados, muitas vezes com uma estética que lembra desenhos animados ou memes. O objetivo é claro, controlar a informação, semear a confusão e projetar uma imagem de poder que nem sempre reflete a realidade no terreno.

Essa nova tática, que explora a velocidade e o alcance das redes sociais, tem levado a uma proliferação de conteúdos enganosos, desafiando a capacidade do público de discernir o que é real. Conforme informações divulgadas pela RFI, essa prática representa uma forma potente de diplomacia na internet, que veio para ficar.

A “Slopaganda” e a fabricação de verdades alternativas com a inteligência artificial

Em meio a confrontos diretos, como os envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, as disputas militares e tensões diplomáticas agora são retratadas como desenhos animados, vídeos satíricos e cenas fictícias. Tudo isso é criado com o auxílio da inteligência artificial, que facilita a elaboração de cenários imaginários em questão de minutos.

As redes sociais estão repletas de vídeos inteiramente fabricados, mostrando ataques militares que nunca aconteceram, cidades inimigas em chamas ou líderes ocidentais humilhados. Esses conteúdos são pensados para gerar uma sensação de controle, poder e vitória militar, ainda que completamente fictícia.

A tecnologia de inteligência artificial também tem sido usada para encenar futuros alternativos. Um vídeo viral, por exemplo, criado fora do governo americano, mas compartilhado por Donald Trump, transformava Gaza em um resort virtual. A Rússia, por sua vez, recorre à mesma tecnologia para fabricar vídeos de rendições e derrotas do exército ucraniano que nunca ocorreram, demonstrando a ausência de limites para a criatividade nessa nova forma de propaganda.

De desenhos animados a algoritmos: a evolução da propaganda de guerra

Embora as ferramentas sejam novas, a estratégia de usar a animação como propaganda política e militar não é inédita. Ela já existia antes da Segunda Guerra Mundial, durante a Primeira Guerra e no período entre guerras, mostrando que a manipulação de informações é uma tática antiga.

Foi durante a Segunda Guerra Mundial que esse tipo de produção se tornou massivo e estratégico para governos, especialmente nos Estados Unidos, na Alemanha nazista, no Japão e na antiga União Soviética. A animação deixou de ser apenas entretenimento para se tornar uma arma poderosa da propaganda, com regimes autoritários, como o de Adolf Hitler, utilizando desenhos animados para manipular emoções e fabricar inimigos.

Do outro lado do conflito, os Estados Unidos chegaram a contratar estúdios como Walt Disney e Warner Bros. para produzir animações contra o nazismo. Hoje, a inteligência artificial torna essas produções mais baratas, mais rápidas e muito mais fáceis de espalhar, adaptando a propaganda política às linguagens da cultura de massa.

A guerra de narrativas no ambiente digital: um produto consumível

Especialistas apontam que os vídeos fabricados, como os do Irã, são parte de uma guerra de narrativas travada principalmente no ambiente digital. Essas histórias, leves, compartilháveis e aparentemente inofensivas, suavizam a violência, infantilizam o inimigo e transformam os horrores do conflito em um produto consumível.

Para Matheus Soares, coordenador do Aláfia Lab, um laboratório de pesquisa brasileiro, essa estratégia reflete uma transformação profunda na lógica dos conflitos. Ele afirma que as guerras estão sendo travadas não só nos territórios, mas principalmente nas redes sociais, onde governos tentam desmoralizar o inimigo e confundir o debate público para conquistar apoio popular às suas causas.

Nesse contexto, a inteligência artificial surge como mais uma camada da comunicação política, facilitando a criação de vídeos e animações com o objetivo de viralizar e engajar nas redes. Esses conteúdos são chamados de “slopaganda”, em referência ao termo AI slop, usado para definir vídeos gerados por IA que são engraçados, toscos ou sem muito sentido, mas com alto poder de circulação.

O impacto emocional e a credibilidade em xeque na era da IA

É por meio do engajamento desses vídeos, muitas vezes fofos, engraçados e aparentemente inofensivos, que governos conseguem driblar as políticas de moderação das plataformas. Dessa forma, eles distribuem suas narrativas não só para seus próprios cidadãos, mas para pessoas ao redor do mundo, conforme explica Soares.

Sem compromisso com a realidade, essas produções apostam no impacto emocional. “Esses vídeos têm o objetivo de engajar, de tocar o emocional das pessoas, fazendo com que sintam raiva ou ódio do inimigo, mas também orgulho pela causa e pelo lado que escolheram no conflito”, conclui o pesquisador.

Nesse cenário, a credibilidade passa a valer menos do que um clique, e a ausência de verdade corre o risco de parecer apenas uma brincadeira. A inteligência artificial, portanto, não é apenas uma ferramenta tecnológica, mas um agente transformador na forma como os conflitos são percebidos e vivenciados globalmente, redefinindo as fronteiras entre fato e ficção na era digital.

Equipe ViralNews
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