Comida baiana ou peixe na Sexta-feira Santa, entenda por que Salvador escolhe caruru e vatapá enquanto o interior da Bahia mantém tradição do peixe

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A história revela um encontro entre tradições católicas ibéricas e matrizes religiosas africanas, que produziu rituais alimentares distintos entre capital, Recôncavo e interior da Bahia

Na Bahia, a escolha entre comida baiana e peixe para a Sexta-feira Santa não é apenas gastronômica, é histórica e simbólica.

Em Salvador e no Recôncavo, pratos como caruru e vatapá aparecem como parte de um repertório ritual que mistura memória, fé e sociabilidade.

No interior, cidades com origem em trajetórias pecuárias e fluxos migratórios diferentes tendem a seguir mais estritamente o consumo de peixes, ligado à tradição católica europeia, conforme informação divulgada pelo g1.

Origens e trajetórias históricas

Segundo especialistas citados na reportagem, a diferença principal entre os cardápios está ligada às formações sociais e culturais das regiões. Em Salvador e no Recôncavo, a forte presença afro-atlântica deixou marcas que ultrapassam a religiosidade e alcançam o cotidiano.

Sobre esse processo, o historiador Ricardo Carvalho afirma, “Essa presença não se limitou apenas à religiosidade, mas acabou estruturando hábitos alimentares, formas de sociabilidade e práticas simbólicas no cotidiano. É nesse ambiente que a culinária ritual afro-baiana se consolida e vai se entrelaçando com o calendário católico”.

Por outro lado, Carvalho aponta que, em cidades como Barreiras e Vitória da Conquista, a formação histórica, mais ligada à expansão pecuarista, deu outra direção ao repertório alimentar local.

Ele sintetiza essa diferença dizendo, “Na Sexta-feira Santa, essas regiões tendem a seguir mais estritamente a tradição católica europeia, centrada na abstinência da carne vermelha e no consumo de peixes, sem a incorporação desses pratos ritualísticos afro-baianos. Não se trata necessariamente de uma ausência cultural, mas de uma trajetória histórica diferente, mais europeia, e que acabou moldando práticas distintas dentro do estado da Bahia”.

Comida baiana como celebração e memória

Em Salvador, o consumo de caruru, vatapá e outros quitutes na Sexta-feira Santa ganha contornos próprios, que misturam luto cristão e celebração afro-baiana.

Carvalho explica que “Trata-se, na verdade, de uma síntese histórica que está profundamente enraizada, um encontro entre a tradição cristã ibérica e as matrizes religiosas africanas, principalmente aquelas de origem iorubá”.

O pesquisador também destaca o papel comunitário desses alimentos, lembrando que o caruru está associado a rituais, festas religiosas e à ideia de partilha. “Ao serem incorporados na Sexta-feira Santa, esses pratos deslocam a lógica do sacrifício cristão para um campo de memória cultural afro-baiano muito forte, criando uma experiência única em que o sagrado não é apenas penitência, mas também celebração identitária”.

A visão dos terreiros e o papel da fartura

Para líderes religiosos de matriz africana, a alimentação é central na relação com os antepassados. O babalorixá Vilson Caetano, professor da Ufba, afirma que entre os povos africanos a resposta à morte envolve fartura.

Ele diz, “Na Sexta-feira da Paixão, o catolicismo lembra a morte de Jesus. Os africanos escravizados também tomavam parte dessas celebrações, sendo obrigados a participar de alguma maneira delas”.

Vilson explica que, para a cultura africana, “comer e beber são essenciais para a entrada no mundo dos antepassados” e que, por isso, a morte de Jesus passou a ser lembrada com banquetes e iguarias originadas da África Ocidental. “Daí o banquete servido com iguarias originadas das cozinhas da África Ocidental na sexta-feira em que se comemora a Paixão de Cristo”.

Na mesma linha, ele observa que essa lembrança não fica restrita à espera pela ressurreição, afirmando, “O africano não acredita no terceiro dia, não aguarda o terceiro dia para fazer memória da entrada do ente querido no mundo dos antepassados, porque o provérbio diz que os que nascem são sempre vivos, e a morte significa uma continuidade que deve ser rememorada com comida e bebida” e que, por isso, “O entendimento é de que a sexta-feira é o dia da própria resurreição”.

Por que o interior segue mais o peixe

No interior baiano, a tradição de evitar carne vermelha e optar por peixes na Sexta-feira Santa tem raízes mais diretamente ligadas ao catolicismo europeu, e menos à reinterpretação afro-baiana das práticas religiosas.

Além disso, a própria história de ocupação e migração nessas cidades contribuiu para que ritos e cardápios fossem configurados de forma distinta, privilegiando a abstinência e o consumo de peixe como prática religiosa e cultural.

Essa diversidade interna mostra que, na Bahia, as comidas de Sexta-feira Santa são também formas de memória, identidade e convivência, seja no prato com caruru e vatapá, seja no peixe que marca outras regiões do estado.

Reportagem: conforme informação divulgada pelo g1.

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