Relatórios técnicos do BRB descrevem adiamentos reiterados, pedidos não atendidos e dificuldade de rastrear as carteiras podres, ao mesmo tempo em que divergências em repasses apareceram
Equipes do BRB tentaram diversas vezes se reunir com o Banco Master para apurar irregularidades nas operações compradas, sem obter respostas completas.
Foram enviadas ao menos três cartas formais e vários e-mails cobrando esclarecimentos, com resposta parcial em apenas um ponto, e pedidos essenciais não atendidos.
Em meio às remarcações, o BRB registrou preocupação formal e realizou visitas técnicas para conciliar valores, levantamentos e contratos, conforme informação divulgada pelo g1.
Sequência de adiamentos e pedidos não atendidos
A primeira reunião estava marcada para 4 de abril de 2025, e o Banco Master solicitou adiamento para 7 de abril, quando a pauta foi alterada e o tema dos lastros remarcado para 8 de abril.
No dia 8 a reunião chegou a ocorrer, mas o Master novamente pediu novo reagendamento para 9 de abril, e, pouco antes do encontro, pediu adiamento para 14 de abril, alegando não ter concluído levantamentos requisitados.
O BRB havia solicitado quatro levantamentos essenciais, entre eles a relação de contratos originados por associações, contratos originados diretamente pelo Master, listagem do produto CredCesta, e identificação de contratos de consignado e outros vinculados.
Em 14 de abril o Banco Master declinou da reunião, sem indicar nova data, e, diante dos adiamentos, o grupo de trabalho do BRB registrou em 15 de abril de 2025 preocupação com as “constantes remarcações e recusas” do Master.
Primeira visita técnica, planilhas e R$ 15,5 milhões divergentes
No primeiro deslocamento, entre 15 e 17 de abril de 2025, técnicos do BRB verificaram que o controle das operações no Master era feito manualmente, por planilhas, com limitação para calcular valores de repasse.
Durante a visita, foram identificados valores que constavam em arquivos, mas não tinham sido repassados financeiramente, totalizando cerca de R$ 15,5 milhões, dos quais o Banco Master reconheceu aproximadamente R$ 14,5 milhões, pagos durante os trabalhos.
Os relatórios apontam demora no atendimento às demandas e pouco conhecimento da equipe do Master sobre operações originadas por associações, o que dificultou a validação dos contratos adquiridos pelo BRB.
Segunda visita e a identificação da Tirreno como origem das carteiras
Na segunda visita, nos dias 29 e 30 de abril de 2025, o BRB aprofundou exames sobre averbações, lastros e informações complementares, além de discutir o uso de conta escrow para conciliar repasses.
Foi nessa etapa que a equipe do BRB descobriu que boa parte das carteiras compradas não tinha origem no próprio Banco Master, mas sim na empresa Tirreno, criada em 4 de novembro de 2024.
Em encontros anteriores o Master havia dito que parte dos contratos vinha de uma “associação”, sem identificar a instituição, e a formalização do nome Tirreno só ocorreu durante a visita presencial, por meio do superintendente executivo de Tesouraria, Alberto Felix.
DuAS semanas depois, o Master informou em reunião virtual que não registrava essas operações em seu balanço, o que, segundo o grupo de trabalho, prejudicava rastreabilidade e validação.
Gravidade das descobertas e suspeitas sobre operações
Os relatórios do BRB indicam que o banco acabou comprando R$ 12 bilhões em carteiras podres, que não pertenciam ao Master e não tinham garantias financeiras.
A suspeita levantada pelos auditores é de que o Banco Master não tinha fundos suficientes para honrar títulos emitidos com vencimento em 2025, e que houve compra de créditos da Tirreno sem pagamento, para posterior revenda ao BRB.
Além das perdas potenciais, os documentos citam falhas documentais, inconsistências em repasses e a constatação de uma “inadimplência muito acima do esperado” em parcelas que não haviam sido incluídas nos arquivos enviados pelo Master.
Implicações operacionais e próximos passos
O BRB tentou medidas operacionais, como a possibilidade de depósito direto em conta escrow para permitir conciliação antes de qualquer movimentação, mas enfrentou resistência e falta de informações completas.
Com as descobertas, o caso deve seguir com apurações internas, auditorias e, possivelmente, medidas legais ou regulatórias, enquanto o BRB procura proteger seus recursos e esclarecer a origem e a garantia das operações adquiridas.
