Acusações apontam que o agente funerário escondeu corpos, manteve 35 cadáveres e mais de 100 conjuntos de cinzas nas dependências, entregou urnas erradas e cobrou por funerais que não ocorreram
Familiares de vítimas descrevem choque profundo, sensação de traição e danos emocionais duradouros após descobertas em uma funerária de Hull.
A investigação, que durou meses, revelou também vendas de planos funerários fraudulentos e furtos a instituições de caridade.
Conforme informação divulgada pelo g1
Descoberta e investigação
Em março de 2024, a polícia encontrou 35 corpos e mais de 100 conjuntos de cinzas nas instalações da funerária Legacy Independent Funeral Directors, em Hull, no nordeste da Inglaterra.
Segundo a investigação, um dos corpos estava ali havia cerca de um ano, e muitas famílias receberam cinzas que não pertenciam a seus entes queridos.
O homem acusado, Robert Bush, de 48 anos, admitiu em audiência ser culpado de 30 acusações relacionadas ao caso, além de ter se declarado culpado anteriormente por apresentar cinzas de desconhecidos às famílias e vender planos funerários fraudulentos.
Relatos das famílias
Vítimas relataram cenas de dor e revolta. A enteada do aposentado Danny Middleton, Michaela Baldwin, afirmou que observou o comportamento do agente funerário durante as audiências, e resumiu sua impressão com palavras fortes.
A declaração citada foi, “Ele é um monstro puro e verdadeiro. É como estar em um filme de terror.”
Outra frase reproduzida no processo e nas entrevistas das famílias foi, “É como um filme de terror”, reação comum entre parentes que descobriram que seus rituais e lembranças foram manchados.
Tristan Essex contou que a lembrança da avó Jessie Stockdale foi profundamente afetada depois que seu corpo ficou retido por cinco meses, enquanto a família foi informada de que o funeral havia ocorrido.
Relatos também descrevem maus cheiros no interior da funerária e alterações constantes nos caixões em que os corpos eram apresentados, com a família percebendo sangue e mofo no acabamento de um dos caixões.
Escopo dos crimes e itens recuperados
As autoridades informaram que, no total, houve 254 vítimas dos crimes praticados entre maio de 2012 e março de 2024.
Mais de 170 pessoas compraram planos funerários fraudulentos oferecidos pela funerária, e a empresa foi dissolvida em uma audiência judicial em maio de 2024 com dívidas superiores a £40.000 (mais de R$ 272 mil, em valores atuais).
Os policiais também recuperaram mais de mil itens, incluindo cartas, roupas de bebê e pertences pessoais que deveriam ter sido devolvidos às famílias.
Além das acusações relacionadas a corpos e cinzas, Bush já admitiu envolvimento em furto que afetou 12 instituições de caridade no Reino Unido.
Reações do setor e pedidos de mudança
O caso reacendeu debates sobre a falta de um regime específico de regulamentação para diretores de funerária na Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda do Norte.
Associações do setor afirmaram que a maioria dos profissionais age com cuidado, mas reconheceram a necessidade de reformas. A proposta inclui um regime independente de inspeção, regras claras para o cuidado e transporte dos falecidos, e a criação de um órgão responsável pela fiscalização.
Familiares das vítimas organizaram vigílias mensais e pedem que o governo implemente regras mais rígidas para evitar que casos semelhantes voltem a acontecer.
Consequências legais e próximos passos
Robert Bush, que estava em liberdade após pagamento de fiança, será sentenciado em 27 de julho.
As acusações também incluem, em quatro casos, a entrega de cinzas falsas a mulheres que perderam seus filhos durante a gestação, um detalhe que agravou ainda mais a comoção pública e a dor das famílias.
Durante as audiências, familiares manifestaram alívio com a admissão de culpa, ao mesmo tempo em que afirmaram que a confissão os aproxima de uma possível reparação, embora reconheçam que a sentença não apagará o dano emocional causado.
O caso permanece como um alerta para a necessidade de maior fiscalização no setor funerário, políticas públicas que garantam transparência e proteção às famílias enlutadas, e responsabilização mais rígida de profissionais que violam a confiança pública.
