quarta-feira, julho 22, 2026

Necromancia Digital: IA Recria Mortos e Acende Debate Ético no Brasil

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A morte do ator Sam Neill, conhecido por “Jurassic Park”, recentemente movimentou as redes sociais com imagens geradas por inteligência artificial (IA) que o “recriavam” em cenários póstumos. Esse fenômeno, batizado de “necromancia digital”, não é isolado e tem reacendido uma discussão complexa sobre os limites da tecnologia, o respeito ao luto e a proteção da imagem de pessoas falecidas. A prática, que ganhou destaque com a popularização das ferramentas de IA, desafia noções tradicionais de memória, legado e privacidade, levantando dilemas éticos que ainda carecem de respostas claras e regulamentação adequada.

O que você precisa saber

  • Necromancia Digital: É a manipulação de vozes, imagens e traços de personalidade de pessoas falecidas por meio de IA para gerar novos conteúdos.
  • Casos Recentes: A prática viralizou com recriações póstumas de figuras como o ator Sam Neill e o fisiculturista Gabriel Ganley, além do polêmico dueto de Elis Regina com sua filha Maria Rita para uma campanha publicitária no Brasil.
  • Dilemas Éticos: Especialistas alertam que a necromancia digital pode transformar o luto em produto, distorcer a memória dos falecidos e criar “fantoches digitais” sem seu consentimento ou o de seus familiares.
  • Falta de Regulamentação: A legislação atual não acompanha a velocidade da tecnologia, deixando lacunas na proteção dos direitos de personalidade após a morte e tornando figuras públicas e anônimos vulneráveis a usos indevidos.
  • Mercado do Luto Digital: Empresas de “grief tech” oferecem interações com clones digitais de entes queridos, uma prática que levanta preocupações sobre a exploração do luto e a interferência no processo natural de perda.

A ascensão da “necromancia digital” e seus dilemas éticos

O conceito de “necromancia digital” descreve a capacidade da inteligência artificial de replicar vozes, imagens e até mesmo traços de personalidade de indivíduos falecidos. O que antes exigia conhecimentos técnicos avançados, hoje é facilitado por plataformas acessíveis, como ChatGPT e Claude, que utilizam “restos digitais” – mensagens, áudios e vídeos – para criar avatares realistas.

A morte de Sam Neill, por exemplo, foi seguida por uma enxurrada de imagens geradas por IA que o mostravam como um “fantasma” entre dinossauros ou “chegando ao céu” em um portão do Jurassic Park. Da mesma forma, após o falecimento do fisiculturista Gabriel Ganley, a internet foi inundada com vídeos de sua “chegada ao céu” em uma “academia nas nuvens” criada por IA. Embora muitas vezes apresentadas como homenagens, essas recriações reacendem o debate sobre a ética por trás da manipulação da imagem de pessoas que já não podem se manifestar.

Para Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath e autora de “All the Ghosts in the Machine”, o principal risco é a transformação do luto em um produto e a criação de “fantoches digitais” que podem ter suas memórias e personalidades distorcidas. Ela destaca que a popularização dos “grief bots”, ou “robôs de luto”, permite que qualquer pessoa crie e até ofereça esses serviços a famílias enlutadas, ampliando a vulnerabilidade dos falecidos e seus entes queridos.

De Hollywood ao Brasil: um histórico de recriações póstumas

A ideia de recriar digitalmente pessoas falecidas não é totalmente nova. Em Hollywood, a computação gráfica e dublês foram usados para completar as cenas de Paul Walker em “Velozes e Furiosos 7” (2015) após sua morte, assim como o ator Peter Cushing foi digitalmente “revivido” em “Rogue One: Uma História Star Wars” (2016). No entanto, o avanço da IA e a facilidade de acesso a essas ferramentas mudaram o patamar da discussão.

No Brasil, um dos casos mais marcantes ocorreu em 2023, quando a Volkswagen utilizou tecnologia deepfake para criar um dueto entre Elis Regina, falecida há 44 anos, e sua filha Maria Rita em uma campanha publicitária. A iniciativa dividiu opiniões e gerou controvérsia. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) chegou a abrir uma investigação para avaliar se a campanha violava o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, e um projeto de lei no Senado propunha diretrizes para o uso de imagens e áudios de falecidos por IA. Ambos, no entanto, acabaram arquivados.

A falta de avanço regulatório no Brasil, como observado por Kasket, é uma preocupação global. A professora alerta que governos muitas vezes são influenciados por empresas de tecnologia, o que pode comprometer a proteção da privacidade e dos direitos dos cidadãos. A filha de Pelé, Flávia Christina, já expressou desconforto com vídeos de seu pai gerados por IA, afirmando que “não são atitudes normais dele”, ilustrando o impacto emocional e a potencial distorção da memória.

O mercado do luto e a visão dos especialistas

A “grief tech”, um setor que busca aplicar a tecnologia ao processo de luto, tem visto o surgimento de empresas que oferecem a criação de versões virtuais de pessoas falecidas para que familiares e amigos possam interagir com esses clones digitais. Embora a intenção possa ser de conforto, essa prática levanta questões sobre a exploração comercial do luto e o impacto psicológico a longo prazo.

A professora Elaine Kasket enfatiza que o luto é uma experiência profundamente individual e que a tentativa da indústria de tecnologia de tratá-lo como um “problema” a ser “resolvido” é problemática. Para ela, o luto não é uma patologia, mas uma parte fundamental da experiência humana, e usar robôs para gerenciá-lo pode ser prejudicial ao processo natural de perda. Casos como o do jornalista Jim Acosta, que entrevistou um avatar de IA de um jovem falecido em um massacre, ou a representação de Jennifer Ann Crecente no Character.AI sem o controle de sua família, ilustram a complexidade e a falta de controle que os familiares podem ter sobre a imagem de seus entes queridos.

Diante desse cenário, Kasket defende a criação de um modelo de direitos da personalidade que se estenda para além da morte física, limitando legalmente o uso de “restos digitais” para replicação ou personificação. A própria professora já incluiu uma cláusula em seu testamento: “não me transforme em bot”, mesmo sabendo que ainda não é legalmente aplicável no Reino Unido, o que demonstra a urgência de debates e ações legislativas nesse campo.

A discussão sobre a necromancia digital está apenas começando. À medida que a IA avança, a sociedade e os legisladores precisarão encontrar um equilíbrio entre a inovação tecnológica e a proteção da dignidade humana, da memória dos falecidos e do processo natural de luto. O desafio é criar um arcabouço legal e ético que permita o desenvolvimento da IA sem desrespeitar os limites que definem nossa humanidade.

Fontes consultadas

  • Fonte 1 informada ao ViralNews pelo sistema de curadoria automatizada
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