quarta-feira, julho 22, 2026

Vício em celular: cresce procura por terapia contra dependência digital

Share

Um número crescente de pessoas está buscando terapia para combater o que descrevem como um vício incontrolável em seus telefones celulares. Embora o vício em smartphones ainda não seja reconhecido como uma condição de saúde oficial, especialistas em dependência e relatos de pacientes indicam que o uso excessivo desses dispositivos está afetando profundamente a vida de indivíduos ao redor do mundo, levando a uma busca por apoio profissional e comunitário para reconquistar o controle.

A compulsão de verificar o aparelho, impulsionada por notificações e a constante disponibilidade de conteúdo, tem levado muitos a consumir horas diárias em frente à tela, resultando em solidão, ansiedade e perda de propósito. Centros de tratamento de dependência, inicialmente focados em substâncias, agora veem um aumento notável de clientes que também lutam contra a dependência digital.

O que você precisa saber

  • Centros de tratamento de dependência no Reino Unido relatam um aumento na proporção de clientes com dependência secundária de telefone, passando de um em cada dez em 2019 para um em cada três no ano passado.
  • Alguns pacientes chegam a abandonar tratamentos para vícios primários por se recusarem a entregar seus dispositivos ao entrar nas clínicas de reabilitação.
  • A liberação de dopamina no cérebro, ativada por curtidas, mensagens e novas informações, é apontada como um mecanismo-chave por trás da formação do hábito compulsivo.
  • Grupos de apoio globais, como o Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA), oferecem um programa de 12 passos para ajudar na recuperação.
  • Psicoterapeutas recomendam a autoanálise do comportamento e a busca por atividades alternativas para lidar com o desconforto da ausência do aparelho.

A Escalada da Dependência Digital

A história de Marios, um personal trainer em Londres, ecoa a de muitos. Ele relata passar até 14 horas por dia no celular, com o Instagram sendo o principal foco. Marios descreve a sensação como ter “seu próprio traficante” no bolso, sempre “piscando, apitando e lembrando de tomar uma dose”. A solidão, segundo ele, é um dos gatilhos para essa compulsão, que ele agora tenta conter com 12 sessões de terapia particular.

Embora a condição não tenha um diagnóstico formal, o impacto é inegável. Uma pesquisa recente da Deloitte com mil adultos revelou que 70% dos entrevistados sentem que passam tempo demais em seus telefones. No Reino Unido, os UK Addiction Treatment Centres (UKAT) notaram um salto alarmante: em 2019, apenas um em cada dez clientes tratados por dependência de drogas também apresentava uma dependência secundária de telefone; no ano passado, essa proporção subiu para um em cada três. A resistência é tanta que alguns chegam a desistir do tratamento principal por se recusarem a entregar seus dispositivos ao internar-se.

O Impacto na Vida Cotidiana e a Busca por Ajuda Profissional

A transição de um uso intenso para uma dependência que requer ajuda profissional pode ser sutil, mas os sinais são claros. No Rainford Hall, um centro de reabilitação em St Helens, no norte da Inglaterra, terapeutas da Steps Together testemunham o crescente número de pessoas incapazes de se desconectar. Kelly Watson, terapeuta-chefe, explica que o sistema de recompensa do cérebro é ativado por cada mensagem, curtida ou nova informação, liberando dopamina. Eventualmente, para alguns, a necessidade desse estímulo se torna excessiva, fazendo com que horas ou dias inteiros desapareçam no mundo online.

James, de 48 anos, que buscou ajuda inicialmente para o vício em álcool em outro centro Steps Together, em Leicester, descobriu que sua dependência digital também estava fora de controle. Após perder o emprego, seus dias eram consumidos por redes sociais, sites de notícias e a obsessão por eventos globais. Ele verificava curtidas e comentários no meio da noite, sentindo-se “refém” do mundo digital, mesmo sem sentir prazer. “Parecia que um pedaço da minha alma tinha sido sugado, mas eu não conseguia parar”, lembra James.

Ao chegar à reabilitação, muitos clientes expressam medo e confusão ao serem solicitados a abrir mão de seus telefones. “Eles dizem: ‘Mas eu preciso para o trabalho, preciso para manter contato com a família’. Posso ouvir o medo em suas vozes. É o porto seguro deles”, relata Watson. A terapia busca reduzir gradualmente o tempo de tela e explorar os pensamentos e sentimentos que surgem na ausência do dispositivo, frequentemente revelando que o uso excessivo é uma forma de se dissociar de uma realidade que consideram difícil.

Apoio Comunitário e Estratégias de Recuperação

Longe dos centros de reabilitação, comunidades globais também se organizam para enfrentar a dependência digital. Em 2017, o Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA), inspirado nos Alcoólicos Anônimos, foi criado para oferecer suporte. Jenny, uma de suas membros, conta que no auge de seu vício, não dormia nem comia por dias, perdendo “partes da minha vida”. Ela não se importava com o conteúdo, apenas com o ato de assistir. A gravidade da situação a levou a pedir que amigos e familiares trancassem seus dispositivos, pois sentia que “iria morrer se não assistisse a algo”. Após anos de luta e o programa de 12 passos do ITAA, Jenny está em recuperação há cinco anos, usando um telefone básico e a internet apenas para o trabalho. “Agora estou no comando”, afirma.

Tom, outro membro do ITAA, perdeu meses de sua vida para as telas, consumindo conteúdo por 10 horas seguidas – música, YouTube, redes sociais, videogames – tudo ao mesmo tempo. Isso o levou a perder seu negócio e seu senso de propósito, culminando em pensamentos suicidas. Hoje, ele está redescobrindo a alegria na vida, dedicando-se a atividades como pickleball, exercícios e tempo ao ar livre.

A psicoterapeuta Hilda Burke, autora do livro “Phone Addiction Workbook”, observa a crescente demanda por ajuda para a dependência digital. Ela sugere que as pessoas analisem seu próprio comportamento, questionando o que estava acontecendo no dia em que o uso excessivo ocorreu. Muitas vezes, a espera por uma mensagem causa um desconforto inicial que leva ao uso do telefone como distração. Burke recomenda substituir o uso online por atividades como ligar para um amigo, correr ou ler um livro, evitando sentimentos de culpa ou vergonha.

Perspectivas e o Caminho a Seguir

Empresas de telefonia têm implementado recursos que permitem aos usuários monitorar e restringir o tempo de tela e o acesso a aplicativos específicos, numa tentativa de ajudar a quebrar o ciclo viciante. No entanto, a mudança de hábito exige esforço individual e suporte.

Marios, em Londres, mantém a esperança de superar sua dependência com a terapia. Ele reconhece que nem tudo no telefone é ruim, como seu progresso no aprendizado de espanhol através de aplicativos. Apesar de ainda pegar o aparelho por impulso, ele se lembra de sua determinação. “Todos os dias, estabeleço a intenção de não usá-lo tanto e isso está fazendo diferença”, diz Marios, otimista com a possibilidade de voltar a aproveitar as coisas da vida novamente.

A discussão sobre o vício em celular continua a evoluir, e a conscientização sobre os riscos do uso descontrolado é fundamental. Para o leitor brasileiro, que vive em um dos países com maior uso de redes sociais e smartphones, é crucial refletir sobre seus próprios hábitos e, se necessário, buscar ajuda. O caminho para um relacionamento mais saudável com a tecnologia passa pela autoanálise, pela busca de apoio e pela revalorização das interações e experiências do mundo real.

Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica, diagnóstico ou tratamento profissional. Em caso de sintomas, dúvidas ou emergência, procure um profissional de saúde ou serviço médico adequado.

Fontes consultadas

  • Reportagem da BBC, publicada no G1, sobre o vício em celular e a busca por terapia.
Equipe ViralNews
Equipe ViralNewshttp://viralnews.com.br
Equipe editorial responsável pela seleção, revisão e atualização de conteúdos do ViralNews. Para sugestões e correções: contato@viralnews.com.br

Leia Mais

Saiba Mais