Cessar-fogo no Irã deixa iranianos divididos entre alívio pelos ataques encerrados e temor pela continuidade do regime e repressão
A recente trégua no conflito envolvendo o Irã tem sido recebida com sentimentos conflitantes pelos seus cidadãos. De um lado, alívio pelo fim dos bombardeios e das semanas de medo constante. De outro, profunda apreensão com a manutenção do regime teocrático vigente desde 1979 e o aumento da repressão interna.
Os moradores de Teerã relatam que, apesar das pausas nos confrontos, o governo utiliza o cessar-fogo para se fortalecer e sufocar os protestos que vem ocorrendo desde janeiro. A sensação geral é de insegurança diante das execuções, prisões em massa e cortes quase completos da internet que restringem o contato do país com o mundo exterior.
Conforme informação divulgada pelo g1, essa percepção revela um cenário onde a população teme que a chamada “caça às bruxas” e o autoritarismo governamental se agravem a partir desses eventos recentes.
Confiança crescente do regime e o impacto na liberdade
Autoridades iranianas comemoram a trégua como uma vitória que reforça a legitimidade da república islâmica, mas essa confiança, para muitos, pode se traduzir em consequências negativas para o povo. Um corretor da bolsa de 30 anos, em Teerã, afirmou que o regime está “mais confiante, mata mais gente e mantém a internet cortada”. Ele acredita que “tudo vai ser muito pior” e que a ofensiva israelense-americana acabou sendo apenas um “trabalho inacabado”, indicando a possibilidade de novos conflitos no futuro.
Essa atmosfera de medo é compartilhada por muitos, que veem na trégua uma mera pausa tensa e não uma solução definitiva.
Repressão violenta e violações dos direitos humanos
Durante o conflito, o governo iraniano intensificou sua repressão, executando sete pessoas ligadas aos protestos antigovernamentais e detendo centenas de outros, com relatos de confissões forçadas transmitidas na televisão. A Organização Não Governamental Juntos contra a Pena de Morte destacou que a pena capital se tornou um instrumento de intimidação contra a população local, contribuindo para a chamada “caça às bruxas”.
A Netblocks informou que as restrições à internet persistem há cerca de 40 dias, resultando em uma desconexão massiva com o restante do mundo, prejudicando a comunicação e o acesso a informações independentes.
Incertezas políticas e econômicas pós-conflito
Mesmo com a morte do líder supremo Ali Khamenei no primeiro dia do confronto, a estrutura militar e os dispositivos repressivos seguiram atuando normalmente. O futuro político permanece incerto, com seu filho Mojtaba Khamenei indicado como possível sucessor, mas sem aparições públicas recentes.
Especialistas afirmam que o regime saiu economicamente enfraquecido e que é uma questão de tempo até o retorno de protestos populares massivos. Para muitos iranianos, terminar a guerra com a manutenção do atual poder não traz benefícios, e as perdas poderão ser repassadas ao povo.
Desconexão entre a guerra e os anseios da população
Conforme explica Mahmud Amiry-Moghadam, diretor da ONG Iran Human Rights, “as pessoas no Irã percebem que esta nunca foi uma guerra por elas ou por seus direitos”. Mesmo com a trégua centrada em temas como o programa nuclear e a reabertura do Estreito de Ormuz, grande parte da população continua sentindo-se esquecida e oprimida pelo sistema.
Figuras políticas no exílio manifestam frustração, considerando o acordo prejudicial aos interesses nacionais, o que reflete a ampla dificuldade de se encontrar uma saída pacífica e justa para o Irã e seu povo.
