Um fenômeno misterioso e de proporções globais tem intrigado livreiros independentes: um aumento súbito e incomum na venda de grandes volumes de livros usados. A suspeita é que essas compras sejam motivadas por empresas de inteligência artificial (IA) que buscam alimentar seus sistemas com um vasto acervo de textos, muitas vezes recorrendo à digitalização destrutiva das obras.
Essa prática, que visa transformar o conteúdo físico em dados digitais para o treinamento de grandes modelos de linguagem (LLMs), como o Claude da Anthropic, levanta uma série de questões éticas sobre a preservação cultural e o destino de exemplares raros, além de discussões legais sobre direitos autorais em diferentes jurisdições.
O que você precisa saber
- Livreiros independentes em diversas partes do mundo relatam um aumento incomum na venda de grandes volumes de livros usados para compradores misteriosos.
- Acredita-se que as obras estejam sendo adquiridas por empresas de inteligência artificial para treinar seus modelos de linguagem, buscando uma diversidade maior de dados.
- O processo, conhecido como “digitalização destrutiva”, envolve a remoção da lombada do livro para digitalizar as páginas rapidamente, com os restos sendo reciclados.
- Uma decisão judicial nos Estados Unidos em 2025 considerou que o uso de livros adquiridos para treinar IAs não viola as leis de direitos autorais americanas.
- Apesar do benefício financeiro para a venda de obras encalhadas, a destruição física dos livros gera desconforto e preocupação entre os livreiros, especialmente em relação a exemplares raros.
O apetite insaciável da IA por dados
O crescimento explosivo da inteligência artificial tem demandado uma quantidade sem precedentes de dados para o treinamento de seus modelos. Para que um chatbot como o Claude ou o ChatGPT possa gerar textos coerentes, responder a perguntas e até mesmo simular conversas humanas, ele precisa ser exposto a trilhões de palavras, frases e informações extraídas de diversas fontes.
Nesse contexto, os livros usados, que antes acumulavam poeira em prateleiras de sebos, tornaram-se um novo e valioso recurso. Documentos judiciais relacionados a um processo contra a empresa Anthropic revelaram a existência do “Projeto Panamá”, que tinha como objetivo declarado “digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo”. Embora a Anthropic afirme não destruir livros raros ou de antiquário, a ideia de que obras estão sendo transformadas em polpa de papel para alimentar algoritmos gera apreensão.
A digitalização destrutiva é um processo industrial: os livros são enviados para locais onde suas lombadas são removidas, permitindo que as páginas sejam escaneadas em alta velocidade. O material físico restante é então reciclado. Essa técnica é empregada para otimizar o tempo e o custo da conversão de grandes acervos físicos em bibliotecas digitais.
Um dilema ético e legal para os livreiros
Para os livreiros, essa nova demanda representa um dilema. Por um lado, a venda de grandes volumes de títulos que estavam encalhados há anos é um alívio financeiro, impulsionando o negócio de estabelecimentos como a Barter Books, no Reino Unido, que registrou pedidos equivalentes a uma semana de vendas em uma única transação. Por outro lado, a perspectiva de que esses livros serão destruídos, especialmente se forem edições únicas ou raras, causa um profundo desconforto.
O proprietário da livraria Walden Books, David Tobin, expressa essa dualidade: “De certa forma, é muito bom vender alguns desses títulos que não eram comercializados há muitos anos, mas seria triste se eles acabassem sendo destruídos”. A preocupação é ainda maior para livreiros como Derek Walker, da McNaughtan’s, que já vendeu exemplares únicos de edições do século XVIII e questiona a perda de um item de valor histórico incalculável.
Do ponto de vista legal, a situação varia. Nos Estados Unidos, uma decisão judicial de 2025 contra a Anthropic considerou que o uso de livros adquiridos para treinamento de IA é “extremamente transformador” e, portanto, permitido pela lei de direitos autorais americana. No entanto, em países como o Reino Unido, a legislação é mais rigorosa, exigindo a permissão dos titulares dos direitos autorais para a cópia e o treinamento de IA com obras literárias.
Implicações para o cenário global e brasileiro
Embora as fontes não detalhem o impacto direto no mercado de livros brasileiros, a tendência global de aquisição e digitalização de obras para treinamento de IA tem repercussões indiretas para o Brasil. O desenvolvimento de modelos de linguagem cada vez mais sofisticados no exterior influenciará as tecnologias disponíveis e adotadas no país, desde ferramentas de automação até plataformas de conteúdo.
A discussão sobre direitos autorais e o uso de material protegido para fins de treinamento de IA é um debate global que também se reflete no Brasil, onde a legislação sobre propriedade intelectual pode precisar de atualizações para lidar com esses novos desafios tecnológicos. A ausência de uma menção específica a regulamentações brasileiras nas fontes indica que o tema ainda está em desenvolvimento ou que a atenção se concentra primeiramente nos mercados onde as empresas de IA operam mais ativamente.
A preservação do conhecimento e do patrimônio cultural em meio ao avanço tecnológico é um ponto crucial. A digitalização, quando feita de forma não destrutiva, pode ser uma ferramenta poderosa para democratizar o acesso ao conhecimento. Contudo, a destruição física de livros, mesmo que encalhados, levanta a questão sobre a responsabilidade das empresas de IA com o legado cultural.
A situação atual revela uma encruzilhada entre o avanço tecnológico e a preservação do patrimônio cultural. À medida que a inteligência artificial continua a se desenvolver, a forma como lidamos com a matéria-prima de seu treinamento — o conhecimento humano registrado em livros — precisará ser debatida e regulada globalmente. O que muda agora é a percepção de que cada livro, mesmo o mais obscuro ou encalhado, pode ter um novo valor no mundo digital, mas também um destino incerto. Acompanhar a evolução das leis de direitos autorais e as práticas da indústria de IA será fundamental para entender o futuro dos livros e do conhecimento.
Fontes consultadas
- Fonte 1 informada ao ViralNews pelo sistema de curadoria automatizada
