Em hospitais que lutam para funcionar sem combustível, muitas grávidas relatam interrupções no atendimento, refeições precárias e o temor de ter um parto durante um apagão
Mulheres no terceiro trimestre estão vivendo com a incerteza de que um corte de energia possa coincidir com o trabalho de parto, e com a dificuldade crescente de acesso a alimentos e remédios.
Algumas têm recebido atenção hospitalar sob condições extremas, outras dependem de fogões a lenha improvisados, doações esparsas ou da ajuda da família para sobreviver aos dias sem eletricidade.
Estima-se que haja atualmente cerca de 32,8 mil mulheres grávidas em Cuba, segundo as estatísticas do governo local, conforme informação divulgada pelo g1.
Hospitais, geradores e doações contra o relógio
Pacientes e profissionais descrevem maternidades que enfrentam apagões gerais prolongados, às vezes por todo o dia, e a dificuldade de manter geradores por falta de combustível. No fim de semana do dia 21 de março, Cuba enfrentou mais um colapso do sistema elétrico nacional, cenário que aumenta o medo entre gestantes.
Uma grávida que recebeu atendimento declarou, “Eles fizeram todo o possível por mim no hospital”, e acrescentou, “Eles me deram os remédios e a insulina necessária para a saúde do meu bebê e da placenta.” Essas falas ilustram o esforço da equipe médica, mesmo sob pressão.
Organizações de solidariedade internacional chegaram a Havana com doações para maternidades, mas o fornecimento é irregular e muitas mulheres afirmam não ter recebido ajuda suficiente.
Vidas em casa, fome e doenças que enfraquecem gestantes
Em bairros de Havana, gestantes relatam não conseguir cozinhar por falta de energia, com geladeiras vazias e apenas fogões a lenha improvisados como alternativa. “Você precisa se levantar de madrugada, quando a energia volta, para cozinhar o que tiver”, conta uma dessas mulheres.
Ela afirma ainda, “E, muitas vezes, isso não tem as vitaminas e proteínas de que preciso e certamente não mata minha fome maior por causa da gravidez”, frase que evidencia a carência nutricional que atinge gestantes.
Algumas também enfrentaram doenças nesta gestação. Uma mulher contraiu chikungunya no primeiro trimestre e ficou muito fraca, mas os médicos asseguraram que o bebê estava bem.
Medo do parto no escuro e apreensão sobre o futuro
Muitas grávidas temem a possibilidade de dar à luz durante um apagão, com iluminação improvisada por lanternas de celular. Embora hospitais possuam geradores, a falta de combustível compromete a operação contínua desses equipamentos.
Além do receio imediato, mães relatam angústia sobre o futuro das crianças. Uma gestante declarou, “Não vi nada da ajuda humanitária enviada para Cuba”, e resumiu sua sensação com, “Somos nós contra o mundo!”
Outra mãe refletiu sobre as perspectivas para a filha, perguntando, “Como vou dizer a ela que não há futuro? Porque ela não terá…” e afirmando, “Se dissesse isso, estaria mentindo. Ela não terá nenhuma oportunidade de crescimento aqui, nenhuma.”
Impacto demográfico e necessidade de medidas urgentes
Cuba enfrenta uma população envelhecida, taxa de natalidade baixa e forte emigração, fatores que tornam a crise de agora ainda mais sensível para a formação de novas famílias. O contexto de apagões e escassez pode desestimular ainda mais nascimentos futuros.
Enquanto parte do país espera por soluções logísticas e por combustível para manter serviços essenciais, grávidas seguem contando com a dedicação de equipes médicas, pequenas doações e a rede familiar, em meio a um cenário de incerteza para o curto e longo prazos.