Em um cenário político cada vez mais dinâmico, compreender o comportamento do eleitorado independente tornou-se crucial. O Jornal da Globo iniciou a série especial ‘Voto Pendular’, que busca decifrar as escolhas de um terço dos brasileiros que já mudaram de voto nas últimas eleições. O primeiro episódio, gravado em São Paulo, mergulhou nas perspectivas de trabalhadores autônomos, revelando um mosaico de prioridades e desafios que podem moldar as urnas de 2026.
O que você precisa saber
- A série ‘Voto Pendular’ do Jornal da Globo investiga os 32% do eleitorado brasileiro que mudam de voto entre eleições, segundo pesquisa Quaest.
- O episódio inicial em São Paulo entrevistou entregadores, profissionais da beleza e empreendedores, destacando a complexidade das motivações desses eleitores.
- Embora a autonomia seja um valor central para esses trabalhadores, ela vem acompanhada de preocupações latentes com proteção social, saúde, educação e segurança pública.
- As percepções sobre política e o engajamento com o voto divergem, mesmo entre grupos com desafios semelhantes, mostrando a não-homogeneidade desse eleitorado.
- A série busca entender como as experiências pessoais e as condições de trabalho influenciam as escolhas políticas e o futuro da democracia no país.
A Complexidade do Eleitor Independente
O conceito de ‘voto pendular’ refere-se àqueles eleitores que não mantêm um alinhamento político fixo, alternando suas escolhas entre diferentes campos políticos a cada eleição. Segundo dados da Quaest, esse grupo representa 32% do eleitorado brasileiro, uma parcela significativa e com potencial para decidir pleitos. Para entender o que move essas pessoas, a equipe do Jornal da Globo, com a jornalista Renata Lo Prete e o diretor da Quaest, Felipe Nunes, escolheu São Paulo como ponto de partida.
A capital paulista não foi selecionada por acaso. Historicamente, a cidade demonstra um comportamento eleitoral mais volátil em comparação com o estado. Renata Lo Prete aponta que São Paulo já deu a vitória para diferentes campos políticos, mostrando uma facilidade em ‘mudar de ideia’. Essa característica torna a cidade um laboratório ideal para observar as nuances do eleitor independente, cujas decisões tiveram um peso considerável em 2022, contribuindo com quase um quarto da diferença de votos que definiu a eleição presidencial no segundo turno.
A Liberdade e os Riscos do Trabalho Autônomo
Na Zona Leste de São Paulo, uma região com grande concentração de trabalhadores autônomos, a reportagem ouviu entregadores de moto, uma categoria que, na capital, soma cerca de 350 mil pessoas. Para muitos deles, a autonomia é um valor inegociável. Micaías Alves do Amor Divino, que começou a trabalhar cedo e passou a ser entregador, destaca a ‘liberdade’ e a ‘possibilidade de empreender’ como grandes vantagens. Cícero José Cordeiro da Silva compartilha dessa visão, afirmando que nunca mais trabalhará para outra pessoa.
Essa valorização da independência, contudo, vem acompanhada de desafios severos. A falta de proteção social é uma preocupação constante. Micaías relatou ter precisado de ajuda de terceiros após um acidente, e Alef Johnny Bastos questionou a ausência de amparo governamental caso um motoboy fique impossibilitado de trabalhar. Para eles, receber algum tipo de proteção não significa abrir mão da autonomia, mas sim ter segurança em momentos de vulnerabilidade.
As opiniões políticas entre os entregadores também são diversas. Cícero, apesar de decepcionado com os governos, continua votando na esperança de melhorias, embora não espere muito do poder público. Já Micaías, mesmo com título de eleitor, nunca votou por acreditar que ‘não vai mudar nada’ e que os políticos ‘só querem saber deles’. Essa dualidade, segundo Felipe Nunes, ilustra como percepções semelhantes sobre a política podem levar a decisões eleitorais distintas.
Profissionais da Beleza: Entre Dívidas e o Futuro dos Filhos
O segundo grupo entrevistado foram profissionais da beleza, majoritariamente cabeleireiras e manicures registradas como Microempreendedoras Individuais (MEIs) na Região Metropolitana de São Paulo, totalizando mais de 140 mil pessoas. A manicure Janine Mendes Pereira brincou que as ‘dívidas’ são a principal motivação para o trabalho diário, mas logo emergiram preocupações mais profundas.
Helen Melo, cabeleireira e mãe, destacou a filha de 10 anos como sua maior inspiração, apesar da rotina exaustiva. A autonomia é valorizada, mas as dificuldades são evidentes. Janine apontou a impossibilidade de tirar férias remuneradas como um grande problema: ‘Se a gente resolver tirar 30 dias de férias, a gente não consegue. Porque a gente não recebe por isso’. Essa é uma das ‘dores’ do empreendedorismo sem a proteção do trabalho formal, como observou Felipe Nunes.
No campo político, Janine e Kelly Rosa (maquiadora) afirmaram que votarão, mas ainda analisam as propostas, enquanto Helen já decidiu seu voto. As prioridades para este grupo giram em torno de saúde, educação e segurança. Kelly relatou as dificuldades com a escola pública da filha, afetada por paralisações. A segurança pública é uma preocupação constante, com Janine evitando andar na calçada à noite por medo de assaltos. Dados da Quaest reforçam essa apreensão, mostrando que quase 60% dos brasileiros têm medo de andar sozinhos nas ruas, índice que sobe para 75% entre as mulheres. Apesar dos desafios, o otimismo em relação ao futuro prevalece, com Janine e Kelly expressando fé em dias melhores.
Empreendedores e a Busca por Representação Política
Na Zona Oeste, a reportagem encontrou um terceiro grupo: empreendedores e profissionais de inovação, classificados por Felipe Nunes como ‘liberais sociais’. Historicamente ligados a partidos como o PSDB, muitos deles mudaram de voto em 2022, levantando a questão de suas escolhas para 2026.
Alex Appel, cofundador de uma empresa de alimentação, observou que, embora muitos empreendedores iniciem negócios para se afastar da política, rapidamente percebem a dependência de um Estado que crie políticas públicas eficientes. Para ele, o voto é essencial para eleger um governo que apoie empresas, gere empregos e estimule a inovação. Lucas de Lima Neto, diretor executivo, defendeu um Estado regulador e provedor de serviços em áreas onde a iniciativa privada não atua, como a educação em regiões remotas.
A falta de identificação com os candidatos atuais é uma queixa comum. Renatta de Souza Hülse, coordenadora de operações, afirmou não ter ninguém que a represente de verdade, vendo a próxima eleição como uma ‘escolha pelo menos pior’. Alex compartilha do desânimo, mas Lucas, que vivenciou a ditadura militar, enfatiza a importância da participação, defendendo a democracia como um valor inegociável. ‘Não dá para se desmotivar. Aí seria fechar a porta e dizer tchau’, concluiu.
Um Eleitorado Plural e Decisivo para 2026
Os relatos dos autônomos paulistas evidenciam que os eleitores independentes não constituem um bloco homogêneo, mas sim uma diversidade de experiências e expectativas. Para os entregadores, liberdade e flexibilidade se misturam com a preocupação pela falta de proteção social. Para as profissionais da beleza, a autonomia é valorizada, mas as demandas por saúde, educação e segurança pública são prementes. Já entre os empreendedores, a busca por um Estado eficiente e a defesa da democracia se destacam.
Essa pluralidade, segundo Felipe Nunes, é uma característica intrínseca desse eleitorado: ‘É como se fosse o mesmo diagnóstico e as pessoas encontrassem um remédio diferente para isso’. As escolhas são moldadas por experiências pessoais, condições de trabalho e visões de futuro, e não por uma única pauta ou identidade política. Compreender essas nuances será fundamental para os candidatos que almejam conquistar o voto pendular em 2026.
O que os próximos episódios da série ‘Voto Pendular’ revelarão sobre os eleitores independentes em outras capitais brasileiras, e como essas descobertas se traduzirão em plataformas políticas, ainda está por ser visto. No entanto, o primeiro capítulo em São Paulo já aponta para a necessidade de os governantes e candidatos atentarem para a voz de um grupo que, apesar de não ter um alinhamento fixo, possui demandas claras e um poder de decisão que não pode ser ignorado.
Fontes consultadas
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