Como um ataque a usinas iranianas poderia derrubar fornecimento elétrico, paralisar serviços essenciais e provocar retaliação contra usinas de dessalinização no Golfo
A escalada verbal entre os Estados Unidos e o Irã tem potencial para se traduzir em ataques que atingiriam infraestrutura civil crítica, com efeitos diretos sobre milhões de pessoas.
Além do impacto imediato no fornecimento de energia, especialistas alertam para riscos à água potável, saúde pública e economia regional, caso instalações de geração e dessalinização sejam danificadas.
Todas as informações desta matéria foram reunidas a partir do conteúdo divulgado pelo g1, com dados e citações das fontes mencionadas abaixo, conforme informação divulgada pelo g1
Como o Irã consegue bloquear o Estreito de Ormuz?
O Estreito de Ormuz é vital para o comércio global de petróleo e gás natural liquefeito, e, segundo o texto, aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido globalmente passa por essa rota, assim como cerca de 20% do comércio mundial de GNL. O controle ou a ameaça à passagem pressiona cadeias de suprimento globais.
Na prática, ataques com mísseis, drones, lanchas rápidas e minas navais já interromperam o tráfego na região. Conforme reportagem citada, o chefe do Estado‑Maior dos EUA, Dan Caine, alertou que um único soldado iraniano em uma lancha rápida poderia disparar um míssil contra um petroleiro ou instalar uma mina naval, tornando simples causar danos significativos.
O especialista Peter Neumann destacou que, pelas ameaças serem consideradas críveis, muitas empresas de navegação evitam a região, “Por isso, a via marítima está bloqueada, mesmo sem um bloqueio físico e sem que todo navio seja atacado“, segundo a fonte.
Quais usinas os EUA podem mirar e quais seriam as consequências para a população?
Analistas apontam que, se houver ataque, as forças podem mirar usinas termelétricas a gás, porque, segundo a Agência Internacional de Energia, cerca de 80% da eletricidade iraniana em 2023 foi gerada a partir de gás natural. Desligamentos em larga escala deixariam milhões sem eletricidade.
Entre as instalações mais importantes está a usina de Damavand, perto de Teerã, com capacidade superior a 2.800 megawatts, e outra grande usina na província de Mazandaran, com capacidade superior a 2.200 megawatts. O único reator nuclear, em Bushehr, fica cerca de 760 quilômetros ao sul de Teerã, e, conforme informado, um edifício a 350 metros do reator já havia sido atingido e destruído.
O presidente Donald Trump chegou a publicar uma ameaça explícita com palavrões, escrevendo, na rede Truth Social, “Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo de uma vez, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão num verdadeiro inferno – Vocês vão ver! Louvado seja Alá“.
Um ataque a usinas a gás poderia causar queda do abastecimento de água por falha em bombas, interromper hospitais, suspender redes bancárias e paralisar indústrias, ampliando o sofrimento civil.
O que o Irã pode atacar em resposta e qual o impacto sobre a água no Golfo?
Em reação às ameaças, Teerã indicou que pode mirar usinas de dessalinização dos países do Golfo aliados aos EUA. Já houve danos a instalações no Bahrein e no Kuwait, por ataques ou destroços de mísseis, possivelmente como aviso.
A região do Golfo depende fortemente da dessalinização, com cerca de 3.400 usinas na área, e, em países como Catar e Bahrein, essas plantas fornecem mais de 90% da água potável. Danos sistemáticos a esse parque representariam risco direto ao abastecimento de água de milhões de pessoas.
Segundo análise do CSIS citada na fonte, o impacto dependeria da quantidade e intensidade dos ataques, e “O efeito mais significativo poderia ser psicológico“, porque abalar a sensação de segurança e estabilidade poderia afastar turistas, investidores e empresas, além de causar prejuízos econômicos duradouros.
Implicações legais e humanitárias
Especialistas em direito internacional e organizações de direitos humanos alertam que ataques a infraestrutura civil essencial podem configurar crimes de guerra. Como explicou Erika Guevara-Rosas, Diretora Sênior de Pesquisa, Advocacia, Políticas e Campanhas da ONG Anistia Internacional, “Atacar intencionalmente infraestruturas civis, como usinas de energia, é geralmente proibido. Mesmo nos casos excepcionais em que se qualificam como alvos militares, uma parte ainda não pode atacar usinas de energia se isso puder causar danos desproporcionais a civis. Dado que essas usinas são essenciais para atender às necessidades básicas e ao sustento de dezenas de milhões de civis, atacá-las seria desproporcional e, portanto, ilegal sob o direito internacional humanitário, podendo constituir um crime de guerra“.
Ela acrescentou, em caráter de alerta humanitário, que “Ao ameaçar com tais ataques, os EUA estão efetivamente indicando sua disposição de mergulhar um país inteiro na escuridão e de potencialmente privar seu povo de seus direitos humanos à vida, água, alimentação, saúde e um padrão de vida adequado, além de submetê-lo a dor e sofrimento severos“.
O colapso de usinas de energia poderia ter efeitos imediatos e devastadores, com hospitais sem eletricidade, sistemas de bombeamento parados, surtos de doenças evitáveis e escassez generalizada de alimentos, emprego e serviços, conforme análise citada.
Em suma, qualquer ataque ou retaliação contra infraestruturas energéticas ou de dessalinização teria impacto além do campo de batalha, com consequências humanitárias, econômicas e legais que podem marcar a região por anos.