Ofensiva contra termelétricas iranianas, como Damavand, pode deixar milhões sem energia, abrir caminho para ataques a usinas de dessalinização no Golfo e escalar o conflito no Estreito de Ormuz
Uma ação militar contra a infraestrutura energética iraniana teria efeitos diretos e imediatos na vida cotidiana de milhões de pessoas, além de provocar repercussões regionais e globais.
Além do impacto doméstico, o ataque poderia gerar retaliações contra instalações civis em países do Golfo, sobretudo usinas de dessalinização que abastecem milhões de habitantes.
Esses riscos e cenários foram descritos em reportagens e análises citadas a seguir, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o Irã pode bloquear o Estreito de Ormuz e por que isso importa
A estreita faixa marítima localizada na costa iraniana é vital para o comércio global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), o Estreito de Ormuz é a única ligação entre o Golfo Pérsico e os oceanos do mundo, Aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido globalmente passa por essa rota, grande parte com destino à China, Índia e outros países da Ásia, Cerca de 20% do comércio mundial de GNL também depende dessa passagem.
Segundo relatos, ataques a embarcações e a presença de minas ou mísseis lançados de pequenas lanchas já vêm praticamente paralisando o tráfego, porque empresas de navegação consideram as ameaças iranianas dignas de crédito.
Quais usinas os EUA poderiam mirar e por que alvos como Damavand são estratégicos
Uma ofensiva visando a rede elétrica iraniana tende a mirar termelétricas movidas a gás, pois, cerca de 80% da eletricidade iraniana em 2023 foi gerada a partir de gás natural. Entre as instalações mais relevantes está a usina de Damavand, perto de Teerã, com capacidade superior a 2.800 megawatts, e outra usina na província de Mazandaran, com capacidade superior a 2.200 megawatts.
O único reator nuclear do país, a usina de Bushehr, fica cerca de 760 quilômetros ao sul de Teerã e, embora tenha sofrido danos em estruturas próximas, um ataque direto ao reator é visto como improvável devido às consequências imprevisíveis e catastróficas, inclusive porque, segundo a AIEA, um edifício localizado a 350 metros do reator já havia sido atingido e destruído.
Em postagem na rede Truth Social, Donald Trump escreveu, com palavrões e ofensas, “Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo de uma vez, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão num verdadeiro inferno – Vocês vão ver! Louvado seja Alá”, uma ameaça que acelerou sinais de retaliação iraniana.
Consequências imediatas para a população iraniana
Um ataque contra usinas a gás comprometeria o fornecimento de eletricidade, causando apagões que afetariam redes de água, hospitais, bancos e indústrias. O colapso elétrico interromperia sistemas de resfriamento e aquecimento, e pararia estações de bombeamento de água.
O resultado seria queda no abastecimento de água potável, suspensão de cirurgias e tratamentos em hospitais sem energia, interrupção das cadeias de produção e distribuição de alimentos, e aumento rápido de pobreza e desemprego.
O que o Irã pode atacar em retaliação e os efeitos regionais
Teerã sinalizou que poderia mirar usinas de dessalinização nos países do Golfo, instalações essenciais para abastecer populações inteiras em uma região árida. Já houve danos a plantas no Bahrein e no Kuwait, causados por ataques ou destroços, possivelmente como aviso.
Existem cerca de 3.400 usinas de dessalinização na região, e em países como Catar e Bahrein essas plantas fornecem mais de 90% da água potável, portanto, danos sistemáticos poderiam criar crise humanitária em larga escala e corroer a confiança de investidores e turistas.
Risco legal, análises estratégicas e alertas sobre crimes de guerra
Especialistas e ONGs alertam que atacar infraestrutura civil essencial pode configurar crime de guerra. Erika Guevara-Rosas, Diretora Sênior de Pesquisa, Advocacia, Políticas e Campanhas da Anistia Internacional, declarou, “Atacar intencionalmente infraestruturas civis, como usinas de energia, é geralmente proibido. Mesmo nos casos excepcionais em que se qualificam como alvos militares, uma parte ainda não pode atacar usinas de energia se isso puder causar danos desproporcionais a civis. Dado que essas usinas são essenciais para atender às necessidades básicas e ao sustento de dezenas de milhões de civis, atacá-las seria desproporcional e, portanto, ilegal sob o direito internacional humanitário, podendo constituir um crime de guerra”.
Ela acrescentou, “Ao ameaçar com tais ataques, os EUA estão efetivamente indicando sua disposição de mergulhar um país inteiro na escuridão e de potencialmente privar seu povo de seus direitos humanos à vida, água, alimentação, saúde e um padrão de vida adequado, além de submetê-lo a dor e sofrimento severos”.
O think tank CSIS alerta que os impactos dependem da escala, e que “O efeito mais significativo poderia ser psicológico”, porque ataques que comprometam água e energia minam a imagem de segurança que sustenta economia e convivência na região.
Em síntese, um ataque a usinas de energia do Irã tem potencial para causar sofrimento humano imediato, desestabilizar mercados energéticos e de água, e expor os autores a acusações de violação do direito internacional humanitário, fazendo com que qualquer escalada seja de alto custo para civis e para a ordem regional.