Apple 50 anos, comemoração e balanço, como os grandes sucessos impulsionaram o crescimento da companhia e os fracassos revelaram riscos de posicionamento e execução
A Apple completou meio século, com uma história marcada por inovações que mudaram hábitos e por produtos que não decolaram, mesmo com investimento e prestígio.
Para muitos analistas, o legado da empresa é uma mistura de engenharia, marketing e capacidade de criar um ecossistema que prende o usuário, mas também de erros que serviram de lição.
Conforme informação divulgada pelo g1
Por que o iPod, o iPhone e o Apple Watch são sucessos decisivos
O iPod, lançado em 2001, não foi o primeiro reprodutor de música digital, porém se tornou um ícone, ao mesmo tempo em que transformou a forma como as pessoas compravam e ouviam música.
O design com roda de clique e a integração com a biblioteca iTunes abriram o caminho para que o download legal de música digital se tornasse o padrão do setor, e, nas palavras de analistas, o produto mudou tudo quase da noite para o dia.
Sem o iPod, a Apple provavelmente não teria o apoio financeiro e a maturidade operacional necessárias para assumir a complexidade da indústria do smartphone, segundo Francisco Jeronimo, da IDC.
O iPhone, lançado em 2007, consolidou a transformação, ao unir múltiplas funções em um único aparelho. Steve Jobs descreveu a novidade como, “iPod, telefone e comunicador via internet. Não são aparelhos separados, este é um aparelho“, frase que ajudou a posicionar o produto como algo além da tecnologia, como experiência e desejo.
Hoje, mais de 200 milhões de iPhones são vendidos todos os anos, e a adoção em massa criou um ecossistema que dificulta a saída do usuário, por isso o iPhone é visto por analistas como um ponto central da estratégia da Apple.
O Apple Watch, lançado em 2015 sob a liderança de Tim Cook, é outro caso de sucesso que nasceu depois da era Jobs, combinando moda e tecnologia. Em receita gerada, o relógio vale cerca de US$ 15 bilhões, ou R$ 78 bilhões, e foi destacado como um negócio que, isoladamente, estaria entre as maiores empresas do país.
Além de vender bem, o Apple Watch se firmou como referência em tecnologia de saúde vestível, com funções de monitoramento cardíaco que o tornaram importante para fitness e saúde, e que ajudaram a ampliar o alcance da Apple para além dos smartphones.
O que deu errado com Lisa, o teclado borboleta e o Vision Pro
Nem todo pioneirismo virou sucesso. O computador Apple Lisa, de 1983, trouxe interface gráfica e mouse, tecnologia avançada para a época, mas custava cerca de US$ 10 mil, o que o tornou pouco atraente comercialmente.
O caso Lisa ilustra que estar à frente da curva não basta, se o produto estiver mal posicionado, e levou a Apple a repensar preço e público, com o lançamento do Macintosh original por US$ 2.495 no ano seguinte.
Outro erro notório foi o teclado com mecanismo chamado de “borboleta”, introduzido em 2015, que visava reduzir a espessura dos laptops. Usuários reclamaram de problemas de digitação e confiabilidade, levantando a impressão de que a Apple havia priorizado a finura em detrimento da durabilidade.
O problema foi corrigido nos modelos seguintes, e a empresa voltou atrás, lançando em 2019 um MacBook Pro de 16 polegadas sem o teclado borboleta.
Mais recentemente, o headset Vision Pro, com preço de lançamento de US$ 3,5 mil, não encontrou tração suficiente no mercado. Para alguns analistas, a aposta em realidade aumentada acabou sendo muito complicada, sem conteúdo que justificasse a experiência e o preço.
O site The Information afirmou que a Apple reduziu a produção do headset de US$ 3,5 mil poucos meses após o lançamento, devido à baixa demanda e à grande quantidade de estoque não vendido, um sinal de que nem todo grande lançamento gera adesão imediata.
O papel do marketing e da marca na trajetória da Apple
Especialistas lembram que, além do hardware, o sucesso da Apple está fortemente ligado ao marketing e à construção de marca. Emma Wall, estrategista-chefe da Hargreaves Lansdown, resumiu, “Eles venderam um sonho“, destacando como a percepção da marca se tornou tão importante quanto os produtos.
Ken Segall, que trabalhou com Steve Jobs, elogiou a gestão de Tim Cook, dizendo que ele fez um “trabalho incrível” de adaptação, mantendo a rentabilidade da empresa, mesmo que muitos puristas lembrem da fase com Jobs e sintam que a Apple mudou de tom.
Liçōes para os próximos anos e o legado dos 50 anos
Aos 50 anos, a Apple mostra que é capaz de combinar produtos, serviço e narrativa para criar produtos desejados, ao mesmo tempo em que acumula aprendizados sobre posicionamento, preço e experiência do usuário.
Atualmente, segundo analistas citados, cerca de uma a cada três pessoas do planeta tem um produto da Apple, dado que ilustra a escala alcançada e os riscos de manter a inovação constante em mercados maduros.
Os sucessos provaram que integração e design podem definir categorias, e os fracassos lembram que integração e preço, juntamente com experiência real de uso, são igualmente decisivos para o futuro da Apple.
Para os próximos anos, a companhia terá de equilibrar ambição tecnológica com oferta de conteúdo e preço, para que apostas como óculos inteligentes ou futuros dispositivos de realidade aumentada não repitam os erros do passado.