Duas aves nativas do Brasil, a araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis) e a seriema (Cariama cristata), foram classificadas entre as mais barulhentas já medidas pela ciência. Um estudo recente revelou que os cantos dessas espécies podem ultrapassar 120 decibéis (dB) de pico, um volume que se equipara ou até supera o ruído de motosserras e britadeiras, colocando em destaque a incrível capacidade vocal da nossa fauna.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Massachusetts Amherst (EUA), incluindo o brasileiro João C.T. Menezes, durante seu pós-graduação, foi publicada na revista científica Evolution. O trabalho não se limitou a identificar as aves mais ruidosas, mas buscou desvendar quais características físicas determinam a intensidade de seus cantos e como essa capacidade se relaciona com o ambiente e a organização social das espécies.
O que você precisa saber
- Recorde de Volume: Araponga-de-garganta-nua e seriema emitem cantos que chegam a mais de 120 decibéis, comparáveis a motosserras.
- Pesquisa Internacional: O estudo foi realizado por cientistas da Universidade de Massachusetts Amherst, com participação brasileira, e publicado na revista Evolution.
- Fatores Físicos: O tamanho corporal e a largura da abertura do bico são características que contribuem para a intensidade do som.
- Mistério Evolutivo: Apesar de identificar como as aves produzem o som, o estudo não explicou completamente por que elas desenvolveram essa capacidade extrema ou sua vantagem evolutiva.
- Desafios da Medição: A medição precisa de cantos em campo exige tecnologias como telêmetros a laser e medidores de som de alta resolução para contextualizar a distância.
O poder vocal das aves brasileiras
As descobertas lançam luz sobre a amplitude vocal de aves, um campo ainda com poucos dados catalogados. João C.T. Menezes destacou em entrevista que as arapongas da Amazônia e da Mata Atlântica e a seriema emitem os cantos mais altos já medidos, indicando que algumas espécies brasileiras estão no limite da produção sonora observada em animais.
Este novo estudo complementa um recorde anterior estabelecido em 2019, quando pesquisadores da mesma universidade identificaram a araponga-branca, da Amazônia, como detentora do canto de ave mais alto documentado, atingindo 125,4 dB e reconhecido pelo Guinness World Records. A pesquisa atual não busca uma única “campeã”, mas sim compreender o fenômeno da vocalização extrema, independentemente de qual espécie ocupe o topo da lista em um dado momento.
Características que amplificam o som
Os cientistas identificaram duas características físicas principais que ajudam a explicar a capacidade dessas aves de produzir sons tão intensos: o tamanho corporal e a largura da abertura do bico. Aves maiores tendem a ter músculos mais robustos, o que permite maior compressão do ar e, consequentemente, uma emissão sonora mais forte. A seriema, por exemplo, é a maior espécie entre as analisadas no estudo.
Além disso, aves com cantos mais potentes geralmente possuem aberturas de bico particularmente largas. Os pesquisadores fazem uma analogia com instrumentos musicais, onde estruturas mais amplas, como as campânulas de instrumentos de sopro, auxiliam na amplificação do som. As arapongas, apesar de não serem as maiores, apresentam aberturas de bico notavelmente largas em proporção ao seu corpo.
Apesar dessas correlações, os pesquisadores admitem que o entendimento sobre o mecanismo exato que permite a produção de sons tão extremos ainda não está completo. Há um “algo a mais” na forma como essas aves produzem ou irradiam o som que ainda precisa ser desvendado.
O enigma do “porquê” de cantar tão alto
Antes do estudo, diversas hipóteses foram levantadas para explicar as possíveis funções ecológicas e evolutivas de cantos tão intensos. Uma delas sugeria que aves mais barulhentas poderiam ser voadoras menos eficientes, usando o som para compensar uma mobilidade limitada. Outra possibilidade era que espécies que habitam florestas densas precisassem de cantos mais fortes para se comunicar quando a visibilidade é reduzida.
Também se considerou que cantos que viajam por maiores distâncias poderiam ser vantajosos em sistemas de acasalamento poligâmicos, ajudando a atrair parceiros em uma área maior. No entanto, os dados coletados no estudo não sustentaram amplamente essas hipóteses.
Menezes explica que nenhum dos fatores ecológicos estudados explicou de forma clara por que algumas espécies desenvolveram cantos tão altos. Isso não significa que habitat, capacidade de voo ou sistema de acasalamento sejam irrelevantes, mas sim que não parecem ser regras gerais aplicáveis a todas as aves. O “porquê” evolutivo dessa capacidade vocal extrema permanece como uma das grandes perguntas em aberto para a ciência.
Os desafios de medir o som na natureza
Quantificar o volume de um canto de ave na natureza é uma tarefa complexa. A amplitude do som varia drasticamente com a distância entre a ave e o equipamento de medição. Um canto que soa ensurdecedor de perto pode ser quase imperceptível a centenas de metros.
Para superar essa dificuldade e evitar a captura dos animais para experimentos em laboratório (o que seria impraticável para muitas espécies), os pesquisadores empregaram uma metodologia inovadora em campo. Eles utilizaram telêmetros a laser para determinar a distância exata até a ave e medidores de som portáteis de alta resolução. Essa combinação permitiu correlacionar a intensidade sonora registrada com a distância do animal, obtendo medidas comparáveis entre as espécies e ampliando significativamente a base de dados confiáveis sobre a amplitude dos cantos de aves.
O que vem a seguir: mistérios e custos
O estudo respondeu a parte das perguntas, mas abriu novas frentes de investigação. Embora se saiba que aves maiores e com bicos mais largos tendem a produzir sons mais intensos, essa relação não explica completamente como algumas espécies relativamente pequenas conseguem atingir volumes tão altos. Os próximos passos da pesquisa devem focar no mecanismo preciso que permite a essas aves produzir e irradiar sons tão fortes, e qual a real vantagem evolutiva dessa capacidade.
Outra questão crucial que permanece é sobre os custos de um canto extremamente alto. Se, por um lado, um volume elevado pode ser benéfico para a comunicação e a disputa por parceiros, por outro, pode tornar a ave mais vulnerável a predadores. Os cientistas planejam testar diretamente as vantagens e os custos associados a esses cantos extremos, considerando que diferentes espécies podem ter chegado a amplitudes vocais semelhantes por caminhos evolutivos distintos.
Para os pesquisadores, a descoberta de quais aves são as mais barulhentas é apenas o ponto de partida. O foco agora é desvendar os complexos motivos pelos quais a evolução impulsionou espécies a desenvolverem uma capacidade vocal tão extrema.
Fontes consultadas
- Fonte 1 informada ao ViralNews pelo sistema de curadoria automatizada
