Traoré afirma que ‘a democracia não é para nós’, condiciona voto à segurança, e Human Rights Watch registra 1.225 mortes de civis atribuídas a forças governamentais entre 2023 e 2025
O capitão Ibrahim Traoré, que assumiu o poder após o golpe de setembro de 2022, afirmou na TV estatal que “a democracia mata” e pediu que as pessoas “esqueçam a questão da democracia”, ao responder sobre a realização de eleições no país.
Traoré havia se comprometido a organizar eleições em 2024, mas disse agora que não haverá pleito enquanto não houver segurança suficiente para que todos possam votar, colocando a questão da democracia em Burkina Faso como secundária diante da crise.
As declarações e os números sobre mortes de civis vieram à tona em reportagens recentes, conforme informação divulgada pelo g1.
O que Traoré disse sobre eleições e democracia
Durante uma mesa-redonda com jornalistas exibida na TV estatal, Traoré afirmou que “As pessoas precisam esquecer a questão da democracia” e reiterou, “Temos que dizer a verdade: a democracia não é para nós”, ao comentar as prioridades do seu governo.
Ao invocar o exemplo da Líbia, ele criticou tentativas externas de impor modelos políticos, e repetiu que, na visão dele, “a democracia mata”. A fala marca uma guinada em relação ao compromisso anterior de convocar eleições em 2024.
Relatório e números sobre violência
Um relatório publicado na quinta-feira pela Human Rights Watch aponta que as forças militares de Burkina Faso e seus aliados mataram mais civis que os grupos extremistas no período recente.
Segundo a ONG, são 1.225 mortes de civis atribuídas às forças governamentais e aliadas do governo entre janeiro de 2023 e agosto de 2025 em 33 incidentes separados. Já as mortes atribuídas às milícias giram em torno das 600.
Os dados situam a discussão sobre a democracia em Burkina Faso num contexto em que a violência interna e operações militares têm causado um número significativo de vítimas civis.
Medidas políticas e contexto regional
Em janeiro, o governo de Traoré dissolveu todos os partidos políticos, depois de já ter suspendido atividades políticas, reduzindo espaços formais de participação no país.
Antes do golpe, Burkina Faso tinha mais de 100 partidos registrados, com 15 representados no parlamento após as eleições gerais de 2020. As ações tomadas no país se assemelham às medidas adotadas por governos militares em Mali e Níger, que também dissolveram partidos.
Impacto humanitário e segurança
Burkina Faso enfrenta há mais de uma década dificuldades para conter ações de milícias islamistas ligadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, e o avanço dessas forças complicou o cenário de segurança.
Traoré e seu governo colocam a segurança como condição para qualquer retorno às urnas, enquanto organizações como a Human Rights Watch destacam o papel das próprias forças do Estado nas mortes de civis.
O futuro da democracia em Burkina Faso depende, segundo as autoridades, da estabilização do país, mas observadores e ONGs apontam para a necessidade de responsabilidade e investigação sobre violações de direitos e ações que têm afetado a população civil.
